A História se repete

Bar da Barda

por Pedro “amante de bons quadrinhos” Bouça

Texto originalmente publicado no BD JORNAL

Img-de-CapacomicsshopsRecentemente a DC Comics anunciou que faria uma redução no preço de boa parte de sua linha de comics, que passaria de US$ 3.99 a US$ 2.99. A medida foi seguida imediatamente por um anúncio similar da Marvel Comics. As notícias foram recebidas com previsível entusiasmo pelos fãs, mas a História prova que a medida não é muito saudável para os comics norte-americanos a longo prazo. E por quê?

Porque esta redução não veio sem preço. As BDs da DC Comics a sofrerem redução de preços são as mesmas que tiveram um aumento de preços e de páginas poucos meses antes. Um comic americano típico tem 32 páginas, das quais 22 de BD e o restante de anúncios (ocasionalmente mais uma ou duas de conteúdo editorial, como secções de correspondência e similares), mas os que a DC tinha posto a US$ 3.99 tinham sido igualmente aumentados para 48 páginas (30 delas de BD). E com a redução de preço eles passarão não a 22, mas a vinte páginas de BD! Uma redução considerável, que corresponde a mais de uma edição inteira por ano.

Ora, decerto a perda de duas páginas não é uma catástrofe, dizem vocês. Talvez não, porém não é a primeira vez que isso acontece.

Quando foi criado em 1934 (na revista Famous Funnies), o formato da BD estadunidense tinha (além de tamanho um pouco maior, que foi reduzido ao longo dos anos, mas isso é outra história) 68 páginas, das quais cerca de 60 com BDs! A quantidade de anúncios era mínima. O preço era de 10 cents, enquanto uma revista Time da mesma época (que tinha um número de páginas similar e papel melhor) custava 15 cents.

Conforme os anos passaram, porém, a inflação fez seu efeito e os preços das revistas (como a Time) começaram a subir. Preocupadas em manter o preço das BDs em 10 cents, as editoras decidiram ao invés reduzir o número de páginas. Aí é que começou o problema.

O número de páginas de BD começou a encolher violentamente. Das antigas 60, passaram a 50, 40, 30… Até que não foi mais possível reduzir e, no final de 1961, as editoras fizeram o primeiro aumento generalizado de preços dos comics, de 10 para 12 cents. As BDs da época estavam reduzidas a cerca de 28 páginas de histórias por edição (de um total de 32). Por essa altura a Time custava 25 cents, sem mudanças apreciáveis no formato, mais do dobro do preço de uma BD, enquanto a diferença era de apenas 50% um quarto de século antes!

comic-shop

O mais grave é que a BD passara a ser vista como algo barato, em todos os sentidos da palavra, o que criaria uma barreira psicológica, mais do que financeira, nos consumidores, que teriam dificuldade a partir daí para comprar BDs vistas como “caras”, independentemente do número de páginas ou qualidade intrínseca. Este “bloqueio” tem prejudicado a expansão dos comics para outros formatos desde então, um dos motivos que leva o país mais rico do mundo a não ser também o maior mercado mundial de BD…

Porém a redução de páginas não acabou aí! Apesar da “barreira” dos 10 cents ter sido ultrapassada, as editoras continuaram a política de redução de páginas no lugar de reajustes de preço por muito tempo. O auge aconteceu em 1980, quando as BDs foram reduzidas a míseras 17 páginas de história (em um total de 32) por edição, com anúncios (pagos!) na maioria das restantes! Boa parte da lendária fase dos X-Men por Chris Claremont e John Byrne tem essa paginação, pelo que os aficionados dos comics podem facilmente verificar esse número. O preço de capa era de 40 cents. A Time custava US$ 1.25, mais do que o triplo do preço!

De lá para cá, a contagem de páginas aumentou novamente (cortesia da prosperidade da BD americana nos anos 80) e estabilizou-se em cerca de 22 páginas de história por edição. Os preços, porém, subiram desenfreadamente, em particular após a violenta queda de vendas dos anos 90. Hoje um comic book normal custa entre US$ 2.99 e US$ 3.99, enquanto a Time custa US$ 4.95. A proporção dos preços é similar à de 1934, porém o conteúdo das BD caiu para quase um terço…

A “nova” política de redução de preços das editoras americanas é, portanto, retrógrada e daninha a longo prazo. Na França e no Japão os aumentos de preços das revistas de BD eram geralmente acompanhados por um aumento do número de páginas, uma política oposta à americana que deu muitos frutos em ambos os países. Uma lição que, pelo visto, seus homólogos estadunidenses ainda não aprenderam. O barato, como diz o provérbio, às vezes pode sair muito caro…

S_Final

Na semana anterior, aqui no Santuário

semana10

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4 comentários sobre “A História se repete

  1. Sei não, mas acho que essa notícia é velha, de uns 3 anos atrás… As revistas lá aumentaram depois. Mas a análise me parece válida.

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