Cotas no cinema

_0008_Oitavo Passageiro

por João Marcos

Matéria originalmente publicada no site: Produtora Caverna

Img-de-CapablackkingpynOlá! Antes de começar esse meu texto, quero deixar claro, em respeito de quem está lendo, de que essa matéria não entrará em detalhes de segregacionismo social,  ou abordará a questão (Até hoje discutida) das cotas estudantis.  Considero o que vou falar agora, uma ramificação desse assunto.

Porém com menos impacto de perda ou ganho. Tendo menos importância que as cotas estudantis em relação de capacidade de interpretação e abordagem.  Muito menos tento menosprezar as capacidades das pessoas aqui citadas, por causa de sua etnia. Apenas opino sobre um fator preguiçoso e nada relevante que o cinema comercial atual está gradativamente se escorando. Muito comento sobre adaptações de hq’s para o cinema, e isso está quase se tornando uma constante, mas em última análise quis abordar esse assunto aqui. As cotas estão aumentando consideravelmente no cinema desse gênero.
E a ideia dela não é nada significativa.

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Há uma certa arbitrariedade nesse hábito que costuma causar certos incômodos aos fãs. Recentemente foi anunciado o reboot do Quarteto Fantástico pela produtora Fox. O diretor Josh Trank revelou um dos cotados para ser o Tocha-Humana. O ator Michael B. Jordan, que trabalhou com ele em seu filme\debute “Poder Sem Limites”. Jordan é negro e isso causou reações adversas pelo rosto conhecido e carismático de Jhonny Storm desde sua criação em 1961. O típico “american boy”. É certo que na época em que os quadrinhos explodiram nos anos 60, não havia muitos heróis negros. Mas mudar a cor de um personagem realmente soa como melhoria?

Houve os que argumentaram que a cor em nada influencia desde que a essência se mantenha. Mas realmente acho isso um extremismo. Quase um movimento hípster de querer ver o lado bom de tudo que desagrada e é desnecessário. Essa moda ao meu ver é falsa e não tem nenhum propósito abrangente. A indústria parece considerar que ao inserir etnias diferentes em um filme, isso atrairia essas etnias. É quase um racismo mascarado. Precisa ter um ator branco para um branco assistir bom um filme? E diferente de certas obras, esses personagens possuem um rosto. Antigamente o cinema tinha um primor ao detalhar isso. Atualmente costumam mudar características de determinado personagem apenas pra inserir uma polêmica vazia. Citarei uns casos que testemunhei:

Trabalhei em uma locadora por um tempo e certo dia veio um cliente idoso, questionou a presença do ator Idris Elba como o Deus nórdico, Heimdall no filme “Thor”. Heimdall é o único do panteão nórdico chamado de “O Branco” e é irmão da guerreira Sif. Apesar de Elba interpretar secundariamente, a observação irritada desse cliente me desconsertou. Ele considerava ridícula a ideia dessa inclusão e me perguntou cinicamente: “O que ele está fazendo nesse filme? Sendo negro num contexto errado? Só pra chamar atenção?”. Eu não pude responder, pois a situação me fez pensar. Se eu quisesse ser receptivo com as escolha de Idris Elba como Heimdall, eu teria de agir de maneira igual para todos os outros. Do contrário, seria tão controverso quanto esse hábito da indústria. Então preferi me opor.

Essa “inovação ousada” é tão hipócrita que não vinga quando sugerem aplicá-la em um personagem de maior destaque. Quando citaram Will Smith como cotado para interpretar o Capitão América, a idéia sequer foi refletida por tanto tempo. Ele não entrou nem na lista de possíveis candidados ao papel de um herói famoso. Então qual a viabilidade disso? Apenas em papéis pequenos isso é aceitável? Para mim tem reais detalhes que quebram a atmosfera da coisa. Por exempo, a Lois Lane ruiva de Amy Adams não incomodou nada em “Homem de Aço”, porém uma Mary Jane morena numa adaptação do Homem-Aranha com certeza incomodaria. E será que o argumento de que a personalidade mantida intacta é honesto?

Veja Michael Clarke Duncan como Wilson Fisk, O Rei do Crime no filme do Demolidor (nossa foto de capa da matéria). A produção estrelada por Ben Affleck é tão medíocre que Duncan rouba a cena com seu talento. Eu sempre fui fã dele. Mas o chefe do crime organizado negro tem a mesma origem\relação\vivência de um chefe do crime branco? Ou o vilão Electro do Homem-Aranha que será interpretado por Jamie Foxx? Nós vivemos num mundo onde existe sim racismo cruel, mas existe também as peculiaridades que criam raízes, culturas e idiossincrasias. E o argumento mais mainstream contra essas pseudo-cotas até hoje nunca foi refutado de forma decente. “O que aconteceria se fizessem o mesmo com um personagem negro?”

Ao meu ver, seria tão ridículo quanto. O que melhoraria ver a Tempestade dos X-Men sendo interpretada por uma caucasiana? E se não é uma via de mão dupla, então não funciona. Pois o próprio método não se mantém. Como idéia inovadora ela não sugere nada a não ser um interpretável racismo sugestivo, ou falta de criatividade. E como inclusão social em si, é algo pouco mais respeitoso do que uma esmola. É com esse tipo de coisa que mentes como a do cineasta Spike Lee usam pra alimentar seu ostensivo orgulho segregador e conspiratório. Querem fazer algo respeitoso e competente? Aborde os personagens como os indivíduos que eles são.

Façam algo como a própria mídia deles fez. Em 1966, Stan Lee e Jack Kirby criaram T’Challa, o herói conhecido como Pantera-Negra. Não só foi o primeiro herói negro da editora, como foi o primeiro não-americano das hq’s. Mesmo sendo conhecido mais pelos leitores, não significa que ele não possa render boas adaptações no cinema (Vide Homem de Ferro, que antes partilhava o mesmo nível de fama.) A sequência de Capitão América conta com o ator Anthony Mackie que interpretará O Falcão. Um amigo de longa data do herói que mesmo sendo usado como coadjuvante, quebrou a idéia de hegemônia que havia entre os símbolos patrióticos na nona arte. Eu fiquei muito feliz ao saber que a Netflix planeja adaptar uma série do personagem Luke Cage. Negro do Brooklyn que é preso por um crime que não cometeu, e que para conseguir uma condicional aceita ser parte de um projeto científico que buscava pessoas consideradas “dispensáveis”. As consequências do experimento deixam o personagem com a pele impenetrável e ele utiliza da força que vem desse poder para viver no gueto como herói de aluguel. Se a Netflix continuar com sua qualidade, essa abordagem sim terá algo significativo.

Bem, peço desculpas pelas palavras demais e novamente, se fiz alguém interpretar isso da maneira errada. Com essa eu dou um tempo em minhas matérias sobre hq’s e me focarei em outros detalhes muito importantes da sétima arte. Obrigado e um abraço!

S_Final

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5 comentários sobre “Cotas no cinema

  1. Lamentavelmente vivemos no mundo do “politicamente correto” e da “pluralidade multi-étnica”… Isso só faz tornar tudo muito mais chato, previsível e sem criatividade. Acho que atualmente a última HQ que ainda se mantém fiel as suas origens é TEX.
    Direitos Humanos do bandido? Não tem.
    Interrogatório seguindo as regras das boas maneiras? Não existe.
    Afrodescendente? Esquece! É CRIOULO MESMO! Pode olhar, tá lá!
    Oriental? Nem pensar! É AMARELO, puro e simples! Não acredita? Vai ler!
    Povo nativo indígena? HAHAHAHAHAH!!! É FOCINHO VERMELHO!!!! Não! Não tô mentindo! Está escrito no branco e no preto!

    Nossa sociedade atual pensa que inserir heróis de cores diversas vai tornar nossa sociedade mais igualitária ou que promover regalias sócio-raciais irá compensar séculos de discriminação REAL, exploração GENUÍNA, torturas AUTÊNTICAS, mutilações CONCRETAS e assassinatos DE VERDADE!!!!

    Doce ilusão.
    Havia uma música (hoje nenhuma rádio ousaria tocá-la) que fez sucesso na década de oitenta, da banda REPLICANTES chamada “África do Sul”, na época o Apartheid fazia horrores por lá. Vejam a letra:

    África Do Sul
    Os Replicantes

    Na África do Sul é tempo de Zulu, é tempo de vingança
    É tempo de matança
    Cansado de apanhar, cansado de miséria, o negro vai matar
    O negro vai caçar, o branco, o branco
    Enforcamento oficial pro branco é coisa banal
    Mas o negro não aguenta o tranco e vai trucidar o branco
    É tempo de Zulu na África do Sul, o negro vai caçar
    O negro vai matar o branco, o branco, o branco
    As cabeças dos brancos vão rolar
    E não adianta fugir no Jaguar

    Nossa sociedade não aprende mesmo: usa bandeide para tratar osso fraturado e tem piti quando alguém ousa falar mal de suas vacas sagradas…

    Por essas e outras que já nem perco mais meu tempo argumentando.
    É inútil!

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  2. Eu acho q eles mudam a etnia e a opção sexual de alguns personagens prq fica estranho q em um filme 99% dos atores sejam brancos.E a maioria dos personagens é assim por que na época em q foram criados quase não se podia criar personagens negros ou gays.E sim cara existe uma pesquisa q comprova q homens brancos preferem assistir filmes com homens brancos(por isso a dificuldade da gente ver um filme de uma super-heroína)

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  3. Cara, eu concordo com você! Sou fã do Spawn e colocar um branco interpretando ele seria sacanagem. É loucura mudar a cor dos personagens. Alguém pode imaginar o Wolwerine negro? PQP! Quanto a cor do cabelo, que vc disse, a mim incomoda, cara! Kk não tanto, mas incomoda! Não havia tantas heroínas no início tbm, não é? Por que não deixar que o tempo cuide disso, como cuidou alias. Só acho um pouco estranho as versões femininas dos personagens. Tipo a X-23 ou super girl… Ok a X-23 é legal. Pq não fazem uma post sobre isso? Seria legal.

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  4. Colocar um negro como Tocha Humana é a mesma coisa que colocar um branco como Falcão,na minha opinião não fica legal(a não ser que seja uma realidade alternativa,aí tudo bem).Mas cada um tem a sua opinião e eu respeito todas.

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