RESENHA: “A Lenda da Chama Verde” .

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chama verdeRoteiro de Neil Gaiman, e arte de Eddie Campbel (final da segunda guerra), Mike Allred e Terry Austin (assalto em metrópolis), Mark Buckinghan (a relíquia no museu), John Totleben (o limbo), Matt Wagner (o apartamento do fantasma), Eric Shanower e Arthur Adams (inferno), Jim Aparo (o estranho interlúdio), Kevin Nowlan (o interior da chama) e John Little (a noite de Metrópolis).

A edição teve cores de Matt Hollingsorth e Frank Miller foi o autor da capa.

Contém spoilers revelações flamejantes sobre a história.

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A capa de Frank Miller
A capa de Frank Miller

Por Rodrigo Garrit

“Green Lantern/Superman: Legends of the Green Flame” foi escrita em 1987 por Neil Gaiman à pedido de Mark Waid, na época um dos editores da revista “Action Comics Weekly”. A história de 48 páginas foi aprovada, mas acabou sendo vetada pelo simples motivo de que nela, Hal Jordan, o Lanterna Verde, conhecia a identidade secreta de Superman, Clark Kent. Isso ocorreu durante a reformulação de John Byrne ao personagem, quando ele ainda era um novato no universo DC e não tinha tanta proximidade com os outros heróis da editora. Anos depois, mais precisamente em 2000, a coisa havia mudado de figura e a história enfim pôde ser publicada.

No Brasil, essa história passou quase que desapercebida, tendo sido publicada pela Panini na edição nº 03 da revista Wizard.

Na trama, uma antiga bateria esmeralda é encontrada acidentalmente por um dos Falcões Negros em um bunker abandonado no final da segunda guerra mundial, em meio a outros artefatos claramente pertencentes aos membros da Sociedade da Justiça, e deixados ali após alguma batalha, conforme foi dado a entender.

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Décadas mais tarde,  Hal Jordan procura Clark Kent em busca de conselhos, e os dois vão até a um museu de Metrópoles onde o repórter deveria fazer uma cobertura jornalística, e eles aproveitam para conversar. Para surpresa de Hal, ele encontra a tal bateria lá, e constata que não é a mesma usada pelo Lanterna Verde Alan Scott, seu antecessor e membro da SJA, (cujo pode advinha da magia e não da ciência dos Guardiões do Universo). Usando seu anel na mesma, ele acaba causando uma reação inesperada que causa a morte tanto dele quanto do Superman.

A partir daí, começa uma jornada pelo pós vida, envolvendo personagens como o  Desafiador e o Vingador Fantasma, numa desesperada tentativa de escapar do reino de trevas onde foram lançados, literalmente tendo que atravessar o inferno para tanto.

Engraçado como em determinado momento, um dos demônios ironiza Hal Jordan, mandando ele bater seus sapatinhos de rubi e dizer que não há lugar como lar, para que assim escapasse do inferno. Embora estivesse sendo sarcástico, em outro momento o Superman observa que milhares de pessoas que sofriam naquele lugar estavam lá porque queriam, como se acreditassem que realmente mereciam tal sofrimento. O mesmo conceito foi usado por Neil Gaiman em Sandman, quando Morfeus visitou o inferno. Lúcifer não obrigava ninguém a ficar naquele lugar, todos estavam pagando seus pecados por vontade própria, ainda que cegos pela culpa, não se dessem conta disso.

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E por falar em sapatinhos de rubi, me pareceu bem óbvia a referência ao Mágico de OZ quando Clark e Hal se deparam com a grande “Chama Verde”. Mas pode ter sido algo não intencional da parte do autor.

Neil Gaiman tem um modo muito característico de contar suas histórias. Ele nos leva aos becos escuros de sua narrativa, onde anjos, demônios e criaturas intermediárias se esbarram como se fosse a coisa mais normal do mundo, e faz isso de forma tão verossímil, que nos seduz a acreditar em suas falácias.

Mais do que isso, ele prova que uma história, curta e simples pode ter profundidade e vir recheada de elementos significativos, enaltecendo as principais características dos personagens ao invés de transformá-los em manequins aditivados programados para vender milhares de exemplares de revistas.

Não importam as mudanças ocorridas na realidade e no contexto da cronologia dos personagens; a história continua sendo atual e pertinente; inovadora e ousada, coisa que tanto sinto falta na maioria das publicações em quadrinhos atuais, de todas as editoras, sem exceção.

A última página da história, entretanto,  deixa algo nas entrelinhas que me deixou curioso…  após pesquisar um pouco, descobri a mensagem que Gaiman quis passar: ao fundo, vemos o funcionário de um cinema acertando o letreiro para o filme “Atração Fatal”, que em inglês é “Fatal Atraction”. O quadro vai se aproximando, suprimindo algumas letras, até que, no original, leia-se apenas “Action” no mesmo quadro em que Jordan pisca para os leitores e se despede do Superman dizendo: “Te cuida cara! Afinal, a casa é sua! Se é que você me entende”.

Uma singela homenagem ao título Action Comics Weekly que acabou perdendo totalmente seu sentido na tradução.

Mas não importa. Às vezes a simplicidade ganha tanta relevância, que uma HQ curta escrita em 1987 ainda possa ser alvo de resenhas e da apreciação dos leitores de quadrinhos de hoje e quem sabe quanto tempo ainda no futuro?

Os tempos mudam, isso é fato. Mas a qualidade não envelhece.

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A história é desenhada por vários desenhistas distintos, cada um escolhido a dedo para representar determinado aspecto narrativo na trama. Embora sejam artistas com estilos muito diferentes, a transição de uma cena para outra se faz de forma tão bem calculada que não chega a incomodar.

“A Lenda da Chama Verde” é, ao meu ver, aquele tipo de história curta e arrebatadora, que quando lida por uma pessoa leiga em quadrinhos, no lugar e na hora certa,  imediatamente desperta nela a vontade de se aprofundar mais e mais no universo das histórias em quadrinhos.

Precisamos que mais obras assim sejam escritas.

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8 comentários sobre “RESENHA: “A Lenda da Chama Verde” .

  1. Ótimo texto!
    E ótima HQ. Fiz questão de comprar uma Wizard#3, só por causa dela. Se mais autores pensassem que ” uma história, curta e simples pode ter profundidade e vir recheada de elementos significativos”, com certeza teríamos menos leitores abandonando as hq’s de super heróis, e cada vez mais histórias bacanas.

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    1. Lexy, essa é exatamente a expressão de tudo o que eu acredito… eu, (e acredito, todos os outros leitores) queremos boas histórias, sejam de super-heróis, terror, ficção ou o que seja… no caso da Marvel e da DC ( e das outras editoras norte americanas de comics) a concorrência não é pela qualidade e sim pelas vendas. Existem exceções, claro… caso contrário eu não estaria aqui fazendo parte de um blog sobre quadrinhos… ainda acredito existe material que vale à pena, foco nisso e descarto o resto.

      Valeu pelo comentário, abraços…!

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