Oitavo Andar

arte sacra

heartARTE SACRA: Os Contos do Santuário!

Mais alguns distintos devaneios trazidos até vocês pela Nau Santuário, capitaneando os mares da vastidão improvável da qual são feitos os sonhos…

S_Final

Por Douglas Henrique

“Quando eu te vi fechar a porta, eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar.”

tumblr_static_l

       – Você passou dos limites! – Carlos gritava, tomado pela raiva, que, somada ao ódio, o transformava uma bomba-relógio.

Lúcia chorava, ela o amava tanto quanto era possível amar alguém. Faria tudo para eliminar qualquer risco de perdê-lo. E justamente por conta de tão grande amor por ele, ela o estava perdendo.

– Tudo o que eu fiz foi por que eu o amava!

– Acha mesmo que amor é suficiente pra justificar o que você fez?

– Eu não queria perdê-lo – as lágrimas já deixavam seus olhos vermelhos.

– Eu sempre fui um marido fiel a você. Eu jamais te trairia! Ainda mais com ela. Não acredito que você pôde ser tão idiota a ponto de pensar que eu poderia sentir alguma atração por ela.

No fundo, Lúcia sabia que ele estava certo. Mas por mais que isso estivesse evidente, se recusava a tolerar qualquer risco de perder o amado, por menor que tal risco fosse. Não queria discutir, apenas queria evitar que o ódio de Carlos crescesse ainda mais.

– Por favor me perdoe – foi tudo o que ela conseguiu pensar em dizer.

– Acha mesmo que o que você fez é perdoável? Você tirou uma vida! Você não está em condições de pedir o meu perdão! – ele já estava farto de ficar na presença daquela cretina. Algumas horas antes, ele a amava e queria passar o resto da vida ao lado dela, mas após receber uma ligação anônima, sentiu todo esse amor ir embora, para dar lugar a uma fúria implacável. Carlos era altruísta, e por mais que estivesse tomado pelo ódio, não faria mal a ela. Pelo menos, não pelas próprias mãos. Por fim, respirou profundamente e falou:

– Eu vou chamar a polícia – e virou as costas.

Mas lúcia não estava disposta a deixá-lo partir tão facilmente. O desespero tomou conta de seu corpo. Com um salto agarrou a mão de Carlos com força.

– Não! Por favor, não faça isso comigo. Eu te amo!

Mas Carlos não lhe deu atenção. Àquela altura, não sentia mais nada além de nojo e desprezo. Usou a mão livre para empurrá-la com força, fazendo-a ceder e soltar sua mão, caindo de cara no tapete da sala.

Lúcia já perdera as esperanças. Sabia que, por mais que tentasse, nunca o convenceria a perdoá-la. Não fez nada, não conseguia pensar em motivos suficientes para tirar se levantar. Por ela, ficaria ali, com o rosto colado ao chão, até que a polícia chegasse e a levasse para a cadeia, e em seguida, para o corredor da morte.

Quase por impulso, apenas virou o rosto, e pôde ver Carlos lhe dando as costas novamente, e saindo do apartamento, fechando a porta em sua cara.

Ficou ali por mais alguns segundos, apenas imaginando o que poderia fazer. Fazia anos que o único motivo para que tivesse vontade de permanecer viva era Carlos. E agora, ele havia lhe abandonado. Pensou em se matar, mas isso não mudaria o fato de que Carlos não mais lhe pertencia.

Subitamente, teve uma ideia. Uma ideia maluca, mas ainda assim, uma ideia. Levantou-se rapidamente, e se pôs a correr. Abriu a porta, e venceu alguns lances de escada, até chegar ao oitavo andar, onde ficava o apartamento de Dona Maria. Bateu à porta com força, e se esforçou ao máximo para disfarçar o próprio desespero. Alguém abriu a porta, era Dona Maria.

– Olá querida!

Lúcia a cumprimentou, e finalmente ouviu as palavras que esperava:

– Entre minha querida! Vou preparar um chá para você.

Dona Maria era uma senhora Já de idade avançada, mas era uma pessoa de bom coração e sempre estava disporta a fazer o possível para agradar as visitas.

Lúcia entrou, e as duas se encaminharam para a cozinha. Aproveitando-se da distração de Dona Maria, Lúcia conseguiu apanhar uma faca, que encontrou entre outros talheres, e correu para a janela da frente. Olhou para baixo, e lá estava Carlos, saindo do prédio.

tumblr_lhc8vycVaZ1qenrbuo1_500

– Me desculpe, meu amor. Mas se eu não puder ter você, ninguém mais terá – sussurrou para si mesma.

Carlos encarava o próprio carro, do outro lado da rua, ainda indeciso. Deveria ou não chamar a polícia? Deveria ou não abandonar Lúcia? Tais perguntas o sufocavam.

Mas antes que tomasse uma decisão, olhou para cima, imaginando que Lúcia estaria na janela. Mas o que viu foi bem diferente. Lúcia caía, de braços abertos, vindo direto em sua direção. Na mão direita, ela segurava um objeto estranho, que a claridade não o permitiu reconhecer. Antes que pudesse pensar em sair do caminho, Lúcia o atingiu, levando o estranho objeto para baixo de seu paletó. Foi morte instantânea.

Logo, os pedestres se reuniram ao redor dos dois corpor sem vida, os carros que passavam pela avenida movimentada também pararam para observar.

A cena era muito estranha, e todos que a viam não conseguiam entender, de tão impressionados, e ao mesmo tem, assustados. Os dois corpo estavam de conchinha, a mão da mulher segurava a do homem, levando-a ao próprio peito. E o mais estranho, era que a mulher sorria, os músculos já haviam enrijecido, de forma que ela morreu feliz, e aquele sorriso seria eterno.

Quando os pára-médicos chegaram, também não deixaram de sentir o inevitável espanto.

Antes de mais nada, um dos agentes traçou uma linha com giz ao redor dos corpos, o que era estranho. Depois, cada corpo foi colocado em macas diferentes e levados ao veículo dos bombeiros.

Chegando ao necrotério, cada um foi encaminhado a um cômodo diferente para a autópsia. A Dra. Susan foi encarregada do corpo de Lúcia.

Ao despir o corpo da mulher, logo percebeu que havia um corte longo no flanco, provavelmente a arma seria uma faca de cozinha comum. O braço direito estava coberto de sangue seco. Imaginou que aquilo poderia ter sido um assassinato. Porém, quando abriu o peito da moça, deu um salto para trás. A cena à sua frente era um tanto assustadora. Aquela mulher estava sem coração!

Correu para a saída, mas antes que a alcançasse, a porta se abriu. Era o Dr. Patrick, o encarregado da autópsia no corpo de Carlos. Ele segurava uma bandeja, e Susan se assustou novamente, ao ver que acima da bandeja, jazia um coração. Era o coração que faltava no peito da mulher!

– Mas… como…? – ela gaguejava.

– Encontrei isso no bolso do paletó que o homem vestia.

Os dois se entreolharam, e por mais que fosse difícil de acreditar, o acontecido estava claro como água. A mulher não havia sido esfaqueada. Na verdade, antes de se atirar pela janela, ela havia cortado o próprio flanco, e usado a abertura para arrancar o próprio coração. E, antes que ficasse inconsciente pela queda, o entregou ao amado.

Baseado na música “Oitavo Andar” de Clarice Falcão.

Anúncios

2 comentários sobre “Oitavo Andar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s