OS NOVOS DEUSES de JACK KIRBY – “Eu ouvi a palavra. E a palavra é BATALHA”!

Uma análise dos quatro primeiros números de “Novos Deuses”, de 1971, escrita, desenhada e editada por Jack Kirby, com arte-final de Vince Colletta.

Por Rodrigo Garrit

Contém spoilers revelações sobre a história.

Chegou o tempo em que os velhos deuses morreram! O corajoso pereceu com o ardiloso! O nobre definhou, aprisionado na batalha devido ao mal desencadeado! Foi o último dia para eles! Uma Era antiga terminara em holocausto”!

Lançada no início dos anos 70 pela DC Comics, a história dos Novos Deuses começa com a destruição de um velho mundo – muito parecido com a Asgard retratada por Kirby em sua passagem pela Marvel – e serve como uma metáfora para o fim de seu trabalho na editora e o início de uma nova fase em sua maior concorrente.  Junto com os Novos Deuses, foram lançadas também as revistas “Povo da Eternidade” e “Senhor Milagre”, os trabalhos mais autorais da carreira de Kirby. Ao mesmo tempo ele também assumiu o título “Superman´s Pal Jimmy Olsen”, todos com histórias relacionadas. Ao conjunto dessas séries foi dado o nome de “O Quarto Mundo de Jack Kirby”.

O traço de Jack Kirby é não apenas revolucionário, como altamente impactante e assertivo, concede ritmo e movimento a cada quadro. As emoções estão pulsando para fora das páginas, tudo é muito épico… impossível não se envolver…

As histórias publicadas no título “Novos Deuses” foram lançadas no Brasil em 2001 pela editora Opera Graphica, em três volumes em preto e branco reunindo todos os seus 11 números, incluindo um epílogo, que só veio a ser concluído por Kirby em 1985.

Muito da obra apresentada nesses títulos gerou a clássica mitologia desses deuses com “d” minúsculo, porém com o poder de alterar os rumos da vida dos meros mortais.  Essa mitologia inspirou fortemente a criação do site Santuário da forma como ele é, e nada mais justo do que apresentar esse clássico maravilhoso aos nossos amados devotos. Esse é o primeiro de um especial de três partes, onde aos poucos vamos conhecer melhor essa obra, que ainda carece de uma publicação encadernada e em cores aqui no Brasil.

Sem mais sermões… o Santuário orgulhosamente apresenta… Os Novos Deuses de Jack Kirby!

New Gods # 1: Um épico para os nossos tempos!

Vindo de alguma parte do cosmo infinito, o guerreiro Órion vem cavalgando as estrelas, atendendo a um chamado de alguém impossível de ignorar: o Pai Celestial, líder e guia espiritual do mundo conhecido como “Nova Gênesis”. Órion é recebido por seu amigo Magtron (“Lightray” no original), que o acompanha até a câmara onde o Pai Celestial se encontra. Lá eles contemplam um fragmento da “FONTE”, o poder superior que dá sentido a suas existências e detém uma sabedoria infinita. Esse fragmento, na forma de um muro, existe desde antes do fim da Era dos velhos deuses, e fora encontrado pelo Pai Celestial, que acredita ter sido escolhido por ele para ser seu guardião. A Fonte é a chave para a Equação da Vida, a qual prega que todos os seres devem permanecer livres, pois a vida floresce apenas em liberdade. Esta é a causa pela qual vivem os deuses de Nova Gênesis. Quando o poder da Fonte se manifesta, os deuses de Nova Gênesis não ousam deixar que passe despercebido. Apesar dos habitantes do lugar serem poderosos, apenas Órion é forte o suficiente para controlar a manipular a “Astro Força”, um poder devastador, capaz de fazer tremer planetas inteiros. A resistência e a determinação de Órion fazem com que ele seja o único capaz de empregar esse poder e contê-lo, a fim de evitar catástrofes cósmicas.  A Fonte então avisa que Órion deve partir em uma jornada até o mundo sombrio conhecido como “Apokolips”, e em seguida para um planeta inferior conhecido como Terra. E depois disso… preparar-se para a guerra!

Em Apokolips, Órion enfrenta uma horda de “Paradêmonios” e o cruel Kalibak, apenas para descobrir que o senhor daquele planeta infernal não se encontra em seu Reino. Após fazer vários testes em seres humanos do planeta Terra, o que quebra uma velha regra estabelecida entre ele e o Pai Celestial, Darkseid descobre que o segredo da Equação Antivida está escondido na mente de um humano terrestre. Usando a avançadíssima tecnologia de teleporte do “Tubo de Explosão”, ele pretende transferir milhares de guerreiros e seus maquinários inimagináveis para a Terra, fazendo dela uma nova Apokolips e escravizando toda a sua população enquanto busca o segredo perdido da Equação Antivida, nem que para isso tenha que dissecar cada homem, mulher e criança viva, uma por uma. Com a ajuda de Metron, que surge em meio ao caos, Órion derrota Kalibak e resgata os humanos que estavam sendo usados como cobaias. Então eles se transportam para a Terra via Tubo de Explosão, e o guerreiro tem em sua mente o claro objetivo de encontrar Darkseid e desfazer seus planos, se possível aniquilando o déspota no processo.

Um início de tirar o fôlego. Somos apresentados a Órion e ao conceito do Quarto Mundo, e de seu surgimento, que se deu após a destruição do mundo dos velhos deuses. Conforme é explicado na história, do caos criado por essa devastação, surgiram dois planetas gêmeos e opostos: Nova Gênesis e Apokolips. Luz e trevas. Vida e Antivida.

Interessante notar que Órion é enviado à batalha, missão a qual se lança sem hesitar, mas ainda nem desconfia da profecia que diz que um dia o filho será a derrocada do pai… e que ele é aquele que está predestinado a destruir Darkseid. O laço de sangue entre ele o senhor de Apokolips ainda é um segredo guardado à sete chaves pelo Pai Celestial. Metron surge na trama como uma personagem neutro, sua busca pelo conhecimento é o que o move… não importa quem vença a guerra. Ele só está interessado em saber como e porque as coisas funcionam.

New Gods # 2: O Temível Darkseid

Na Terra, os quatro humanos resgatados por Órion decidem fazer o possível para ajuda-lo a se adaptar, uma vez que ele precisará passar um tempo em nosso planeta tentando evitar a catástrofe planejada por Darkseid. Eles se apresentam como Cláudia Shane, Harvey Lockman, Dave Lincoln e Victor Lanza. Sua primeira atitude é dar um nome terrestre a Órion, que adota a alcunha de O´Ryan. Ao chegarem ao apartamento de Lincoln, eles dão de cara com ninguém menos que o próprio Darkseid em pessoa! Após uma breve batalha entre Órion e o servo de Darkseid, Brola, onde ambos quase morrem, o senhor de Apokolips se transporta para uma estação subterrânea usada para a criação de sua “Máquina do Medo”, a qual ele pretende usar para emitir ondas de pânico por toda a cidade e com isso tentar registrar a onda cerebral específica onde se esconde a Equação Antivida. É onde se dá a primeira aparição de Desaad, e também da Caixa Materna, que Órion usa para conectar sua mente com de seus novos amigos a fim de prestar esclarecimentos sobre a guerra que se aproxima. Ainda com ajuda da Caixa Materna, Órion consegue encontrar a Máquina do Medo e destruí-la, mas não antes que o pânico generalizado imergisse a cidade em um caos desmedido. Em Nova Gênesis, a Fonte se manifesta novamente, alertando sobre a eminência da guerra. Magtron se oferece para ir à Terra auxiliar seu amigo Órion, mas para seu desgosto, o Pai Celestial o proíbe, alegando ainda não ser a hora certa.

New Gods # 3: Morte, seu nome é Corredor Negro!

Uma vez que Darkseid se estabelece na Terra em busca da Equação Antivida, Órion, faz o mesmo, assumindo o nome O´Ryan e se passando por uma pessoa normal. Com ajuda de um de seus novos amigos, Lincoln, que é investigador da polícia, ele tenta rastrear as atividades de Darkseid, e chega ao covil da Intergangue, composta por marginais terrestres manipulados pelos agentes de Apokolips. Enquanto isso, no espaço, Magtron está em sérios problemas, sendo perseguido pelo Corredor Negro, aquele cujo toque pode matar os deuses. Mas ele é salvo por Metron que envia o Corredor para a Terra. Tudo se mostra como fruto da vontade da Fonte, e o Corredor percebe que é necessário na Terra. Ele se funde ao veterano de guerra, o sargento Willie Walker, que encontra-se em um estado vegetativo em função dos ferimentos sofridos em combate. Unindo sua essência com a de Walker, o Corredor cria um vínculo humano e parte em sua missão divina. Ao mesmo tempo em que Órion enfrenta membros da Intergangue armados até os dentes com armas de Apokolips, o Corredor consegue interceptar um caminhão com uma poderosa bomba, impedindo sua detonação ao lança-la ao espaço, fazendo apenas uma vítima: o membro da Intergangue conhecido como  Sugar-man, que curiosamente havia tentado matar Willie Walker. Assim o destino fecha mais um ciclo e a vontade da Fonte é satisfeita.

New Gods # 4: Gangue O´Ryan e os Seis Abissais

Metron retornou à Nova Genesis depois de explorar a cultura primitiva de um planeta com seu aprendiz Esak, rompendo as barreiras do tempo e do espaço com sua Poltrona Mobius. Mas ao chegar, as notícias não são animadoras: o Pai Celestial revela que sentiu a morte de um deus de Nova Gênesis na Terra.

Quando os policias retiram o corpo do homem trajando estranhas vestimentas do mar, são surpreendidos pela chegada do investigador Lindoln e seu amigo O´Ryan, que rapidamente reconhece o corpo: é Seagrin, uma valoroso guerreiro de Nova Gênesis, enviado para ajudar Órion contra as investidas de Darkseid e morto em combate. Transtornado, Órion ativa a Caixa Materna de Seagrin, que incinera seu corpo, guiando-o rumo ao fogo cósmico da Fonte que o aguarda para acolhê-lo. Quando as chamas diminuem, é possível ver o Corredor Negro sobrevoando o local através de uma névoa. Sempre é ele a conceder um último toque de misericórdia e conforto para os deuses caídos.

Determinado a desarticular de vez a Intergangue, Órion pede ajuda a seus amigos terrestres para forjar uma gangue fictícia, e assim armar um falso esquema de rivalidade entre elas. Com cada um deles cumprindo seu papel conforme instruídos, O´Ryan localiza a base da Intergangue, onde eles guardam seu arsenal de armas Apokoliptianas, que são incineradas pela Astro Força de Órion. No entanto, Darkseid não está alheio a situação, e coloca Órion em confronto direto com os Seis Abissais, seres de imenso poder oriundos do Apokolips que vivem submersos no mar. A Caixa Materna providencia que o guerreiro possa se deslocar tranquilamente tanto no espaço sideral como nas profundezas do oceano e assim ele entra em confronto com os cruéis inimigos, que já não bastasse serem poderosos o suficiente, ainda podem controlar a mutação de organismos marinhos, gerando aberrações demoníacas obedientes e eles. Sozinho, e a mercê de tantos inimigos poderosos, Órion se depara com a ameaça que vinha sendo mantida em segredo pelos Seis Abissais… a mesma que matou Seagrin, e que agora anseia por eliminar mais um deus…

 

Não percam as duas próximas partes desta análise com os últimos números de “New Gods” nos links abaixo!!

 

OS NOVOS DEUSES de JACK KIRBY – “Os velhos tempos estão de volta! Só que ainda mais esquisitos”.

OS NOVOS DEUSES de JACK KIRBY – “Se os deuses caminhassem entre nós…”.

 

 

 

 

 

 

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34 comentários sobre “OS NOVOS DEUSES de JACK KIRBY – “Eu ouvi a palavra. E a palavra é BATALHA”!

  1. Excelente texto! Sou devoto dos Novos Deuses e estou ansioso para ver como eles serão mostrados no novo UDC, já que até agora só Darkseid (no título da Liga) e Órion (de relance em Wonder Woman #12) derma as caras.

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    1. Uma boa notícia é que eles estão voltando nos novos 52 no título da Mulher Maravilha, e outra ótima notícia é que o Brian Azzarello está cuidando dos roteiros… tem tudo pra dar certo!

      Abs!

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  2. Kirby conduz a história de tal maneira que eu podia ouvir uma orquestra em minha mente a partir do momento em que os ventos se agitavam e Orion percebia que Darkseid era seu pai. A morte de Kalibak e seu recolhimento pelo Corredor Negro é uma das cenas dos quadrinhos que me marcou em definitivo.

    Ansioso pela parte 2!

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  3. Uma pena nao ter sido publicada no Brasil da forma que merece, o preto e branco apesar de ter charme pra mim nao funciona em material que foi feito colorido antes. Mas guardo com carinho as edições da opera graphica. Muito boa a materia, parabens xara Rodrigo. Mais algo em comum alem do Byrne, somos fãs dos Novos Deuses rsrsrs.

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    1. Concordo, e eu espero que esse material seja publicado em cores e completo aqui no Brasil… e John Byrne também brincou com os Novos Deuses, numa fase altamente resenhável no futuro…

      Abraços!

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  4. Uma das mentes mais prolíficas do mundo dos quadrinhos! Seu legado está aí entre as duas grandes Marvel e DC para o deleite dos aficionados por quadrinhos de super heróis! Parabéns Mr, Garrit!

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  5. FANTÁSTICA a criação do REI jack Kirby,”Os novos Deuses”!Pena que não fez o sucesso esperado(talvez porque tinha conceitos muito avançados pra época ou porque foram muitas informações jogadas de uma vez).Seja como for,teve o reconhecimento décadas depois.Kirby,sem dúvida,foi GENIAL!

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    1. Normalmente as pessoas apresentam uma tendência rejeitar o que é novo… e desconhecido. Jack Kirby criou uma nova mitologia dentro do universo de herois da DC, e embora a qualidade e a excelência de seu trabalho sejam indiscutíveis, não foi um sucesso imediato de vendas, embora tenha sido revolucionário e estenda até hoje ramificações em desse trabalho em quadrinhos e outras mídas; ele escreveu, desenhou e editou quatro títulos interligados, sendo que três dele tinham personagens nunca vistos antes… uma aposta ousada, mas isso define o verdadeiro artista, e o diferencia de alguém interessado apenas em números e vendas.

      Novos Deuses de Jack Kirby é uma das maiores criações dos quadrinhos e espero que ainda ressurjam nas mãos de criadores competentes!

      Abraços!

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