Os Novos Titãs: Quem é a Moça Maravilha?

 

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Uma análise do clássico, com roteiro de George Pérez e Marv Wolfman, desenhos de George Pérez, Arte final de Bob McLeod e Romeo Tanghal.

Alerta Spoiler.

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Por Rodrigo Garrit

Cyborg, Asa Noturna, Estelar, Ravena, Mutano, Jericó, Danny Chase e Moça Maravilha. Os Titãs retornam para sua extravagante torre em forma de “T”,   mas não têm tempo para descanso, são atacados por criaturas que surgem sem aviso e ferem gravemente Donna Troy, que graças aos esforço de Ravena consegue se recuperar. Ao mesmo tempo uma misteriosa mulher aparece na Torre em busca de Donna, prometendo revelar o seu “verdadeiro” passado. Ela estabelece uma ligação psíquica com ela, desvendando passagens ocultas em sua mente, fazendo-a recordar-se de eventos e lacunas perdidas em sua mente, ao mesmo tempo fazendo-a perceber que muitas das coisas que ela acreditava ser verdade eram falsas memórias.

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A misteriosa mulher diz se chamar Febe e faz revelações surpreendentes, desconstruindo tudo o que Donna sabia sobre si mesma. Sendo uma das deusas do panteão dos Titãs Mitológicos expulsos pelos deuses olímpicos vindo a se refugiar em outra dimensão numa lua a qual batizaram de Nova Cronos. Lá eles selecionaram crianças órfãs ou a beira da morte como suas sementes e as levaram para Nova Cronos a fim de fazer dela a nova geração de deuses. Donna Troy foi uma dessas crianças. Após concluir seu treinamento elas foram levadas de volta a seus mundos de origem sem as memórias do que aprenderam para não cair no erro comum aos deuses: a arrogância. Mas uma dessas sementes, conhecida com Esparta, despertou cedo demais e essas lembranças a enlouqueceram, fizeram dela uma déspota cruel que passou a buscar pelas outras sementes através do cosmos, destruindo-as e roubando seus poderes. Os Titãs mitológicos, já enfraquecidos, nada puderam fazer para deter o seu avanço, e num último e desesperado esforço, enviaram Febe para tentar avisá-los do perigo. Ao encontrar Donna e coloca-la a par da situação, deu-lhe a missão de encontrar as últimas três sementes sobreviventes e deter a loucura desmedida de Esparta. Através de uma bolha de transporte com poderes divinos, Donna e seus companheiros de equipe decidem atravessar o universo a fim de cumprir essa missão, exceto Danny Chase que é impedido de ir com eles por Asa Noturna por julgá-lo convencido e arrogante demais.

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Na busca pelas outras sementes os Titãs conseguem resgatar Xanthi, que sobreviveu ao ataque dos soldados de Esparta graças a natureza ácida de seu mundo natal, no qual ele pode transitar em segurança graças a um traje espacial. Xanthi tem uma alma gentil e reconhece Donna como uma igual. A próxima semente no entanto é seu exato oposto, Atenas, um comandante ferrenho e líder de um povo bélico que não aceita os argumentos dos Titãs e os considera seus inimigos. Ao mesmo tempo em que eles entram em conflito, os soldados de Esparta atacam de forma brutal, e Atenas só é contido após ser possuído pelos poderes de Jericó. Dominado pelo Titã, ele embarca no transporte fornecido por Febe e eles rumam para Nova Cronos, mas não sem que o pior pudesse ser evitado: as forças liberadas pelo ataque de Esparta destroem seu mundo natal. Inconformado,  Atenas  resiste ao poder de Jericó e aguardo o momento certo de atacar aqueles que ele acredita serem seus inimigos, quase matando os Titãs.

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Durante o ataque, os Titãs acabaram se separando e apenas os que conseguiram chegar em segurança a Nova Cronos foram Donna, Mutano,  Xanthi e Ravena, que com muito esforço consegue salvar apenas Estelar da morte certa com seus poderes de telepote, mas Asa Noturna, Jericó, Cyborg e Atenas foram parar no planeta Synriannaq, lar da semente renegada Esparta. Cyborg é capturado e torturado, e as chances dos outros diminuem a cada segundo. Donna e Xanthi querem ir até lá ajudar seus amigos, mas os Titãs Mitológicos dizem que seria muito arriscado colocar as três últimas sementes ao alcance de Esparta… uma vez que ela consiga destruí-los e roubar seu poder tornaria –se invencível. Após um pequeno impasse, fica decidido que Xanthi é que deve ir, deixando Donna em segurança, muito a contra gosto. Ravena usa seus poderes para transportá-los. A batalha contra Esparta é dramática, uma vida preciosa é perdida e o próximo passo decidirá os rumos dessa guerra.

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Tudo parece perdido, mas Asa Noturna tem um plano. Para quebrar a maldição dos deuses olímpicos sobre os Titãs mitológicos era preciso uma trindade de sementes… com a morte de Xanthi isso se tornou inviável… ou não? Com a ajuda de Ravena, contendo poderes divinos em seu ego espiritual, Donna Troy, Atenas e Esparta ficam prestes a dar início a uma nova era de divindade perdida há milênios… e finalmente a grande pergunta parece ter sido respondia.

QUEM É A MOÇA MARAVILHA?

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Publicada no Brasil pela Editora Abril outubro de 1989 em no título mensal dos Titãs, entre os números 43 e 48, essa saga marcou o retorno da arte de George Pérez de volta aos Titãs após um longo período de afastamento, tendo deixado na história do grupo clássicos como a Saga de Trigon e o Contrato de Judas.

“Quem é a Moça Maravilha”? foi uma história que  pretendia redefinir o papel de Donna Troy no Universo DC após estrondoso reboot que foi a Crise nas Infinitas Terras, também de autoria da dupla Wolfman e Pérez. Esse último por sinal, à frente de roteiro e arte, redefiniu a Mulher Maravilha, recontando sua trajetória numa coleção de histórias até hoje lembrada como uma das melhores e mais emblemáticas fases da princesa amazona.  Mas então, um pequeno paradoxo surgiu. Na nova versão pós-Crise, Diana só viria a surgir no mundo do patriarcado muitos anos depois da nova Era Heroica ter se estabelecido, mais precisamente durante os eventos da minissérie Lendas de John Ostrander, Len Wein e John Byrne. Um caminho similar ao adotado pelo mesmo Byrne que ao reformular o Superman, que deixou claro que ele só revelou seus poderes ao mundo depois de adulto, ou seja, nunca foi um Superboy. Com isso, tanto o homem de Aço quanto a Princesa Amazona não estavam presentes quando a Liga da Justiça foi formada, só juntando-se à equipe nessa,  até então realidade vigente, anos após a sua constituição.

Mas e o que isso tudo tem a ver com Donna Troy? Ora, tudo! Porque se não havia uma Mulher Maravilha, então a Moça Maravilha surgiu antes dela, e fundou a Turma Titã? Como assim?

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Vamos voltar um pouco no tempo,  antes de Crise nas Infinitas Terras. Na não menos clássica história “Quem é Donna Troy”? também de Wolfman e Pérez, publicada no Brasil na revista Novos Titãs  em formatinho da Editora Abril, somos apresentados a um outro prisma dessa história: Donna era um bebê que foi salvo pela Mulher Maravilha de um incêndio, tendo sido a única sobrevivente. Diana então apiedou-se dela e a levou para a Ilha Paraíso, onde ela foi criada por Hypolita como uma filha e tornou-se uma valorosa amazona. Porém, mesmo essa versão ainda não se encaixava com a reestruturação da história da Mulher Maravilha pós-Crise nas Infinitas Terras. E a carismática Donna permaneceu como membro importante, e diria até mesmo fundamental dos Novos Titãs, cujo auge do sucesso se deu nos anos oitenta, porém esse paradoxo em torno da personagem permanecia.

Eis que então, Pérez retorna aos Titãs para junto com seu parceiro Marv Wolfman tentar explicar a existência da moça de forma lógica na cronologia recriada do Universo DC.

Em sua origem clássica, Donna era a irmã mais nova de Diana, que seguiu seus passos, e não o contrário. Mas no reboot apresentado por Pérez, nunca houvera uma Donna Troy na Ilha Paraíso. Como visto no resumo acima, ela foi criada em Novas Cronos pelos Titãs do Mito, e na Ilha Paraíso pelas amazonas.

E assim surgiu a saga “Quem é a Moça Maravilha”?

Ao se tornar Troia, ela ainda manteve sua ligação com os deuses, ou melhor, os Titãs mitológicos, embora seu visual tenha sido alterado drasticamente a fim de desvincular definitivamente da Mulher Maravilha, fazendo dela uma personagem com identidade própria, e não mais uma versão mais jovem de Diana. O que ao meu ver poderia ter parado por aí, Donna como Troia havia enfim alcançado seu apogeu e seu lugar junto aos Novos Titãs, mas por alguma razão isso ainda não era o suficiente para atender qual quer que fosse a necessidade dos editores da empresa que publica suas histórias. Após a saga “Caos Total”, onde o filho de Donna e Terry Long volta no tempo como o déspota conhecido como Lorde Caos,  temos mais eventos confusos para mexer ainda mais com a frágil continuidade não só da personagem, mas de todos os Titãs. Somos então apresentados a uma equipe futurista conhecida como Tropa Titã, que começou muito bem, com personagens carismáticos e o suposto retorno da personagem Terra, morta anos antes no já citado clássico “O Contrato de Judas”. Tudo muito promissor, mas infelizmente com o tempo perdeu-se em roteiros mal elaborados,  o que decretou o fim da equipe na saga Zero Hora, onde eles foram apagados da existência exceto a própria Terra e outra integrante do grupo, Miragem. Mas deixando as Tropas Titãs de lado, ao fim da saga Caos Total, Donna pede que os Titãs mitológicos retirem seus poderes e os que seu filho herdariam, impossibilitando assim sua transformação em Lorde Caos. Ela então decide ser apenas uma mortal sem poderes dedicada a cuidar do garoto… mas isso não durou muito. Donna acabou se tornado uma Darkstar, uma policial do espaço no estilo dos Lanternas Verdes. Ela ainda sofreria a perda de se filho e marido, mortos num acidente de carro, e mais tarde, deixaria de ser Darkstar e recuperaria seus dons divinos.  É como se a DC não soubesse o que fazer com Donna Troy.

Mas na busca por tentar encaixar a personagem no em um contexto geral do Universo DC, anos depois, Phil Jimenez produziria a história “Quem é Troia”? juntando os pedaços  cronológicos e tentando nivelar todos os nuances de modo que fizesse algum sentido. E sim, ele conseguiu, levando em consideração a contribuição de John Byrne quando esteve }à frente do título da Mulher Maravilha, onde criou a personagem Cassandra Sandsmark, que viria a ser a nova Moça Maravilha.

Jimenez nos mostrou as mortes e ressurreições, e as múltiplas vidas infligidas pela personagem ao ser atacada pela entidade conhecida como Anjo Negro, até mesmo inserindo-a na Crise Infinita como uma suposta auxiliar do Monitor, e fazendo-o passar por aventuras não muito elogiadas ao lado do Lanterna Verde Kyle Ryner e o ex-Robin Jason Todd, no prelúdio da Crise Infinita.

Donna ainda teria participação importante como substituta da Mulher Maravilha por um curto período de tempo, se reuniria aos seus velhos companheiros Titãs e por fim seria parte integrante da Liga da Justiça elaborada por James Robinson. Logo em seguida haveria a saga “Ponto de Ignição” (Flashpoint soa tão melhor, não acham?) que mudaria tudo de novo.

Depois do novo reboot da DC, Donna supostamente foi apagada da realidade juntamente com outros Titãs que também desapareceram ou retornaram de forma totalmente diferente. Com a nova realidade reescrita, toda a origem clássica foi desconsiderada uma nova formação de Titãs surgiu em seu lugar. Muito embora já tenha se passado algum tempo desse jeito, as barreiras dimensionais do Universo DC parecem estar enfraquecendo novamente,  outras Terras despontam a cada dia, e a saga “Multiversity” de Grant Morrison já deu pistas de que em algumas delas, Donna Troy e até mesmo toda a clássica formação dos Novos Titãs da era Wolfman e Pérez ainda existem em alguma realidade ou que essa realidade clássica possa retornar e sobrepor ou fundir-se aos eventos dos Novos 52.

Crise nas Infinitas Terras está prestes a completar trinta anos. Nada mais apropriado.

E sobre a saga “Quem é a Moça Maravilha”?…  Essa maravilhosa história nunca foi reeditada desde os idos anos oitenta, e embora alguns clássicos dos Novos Titãs já tenham sido republicados pela Panini, ela continua relegada ao esquecimento. Até mesmo o revival produzido por Wolfman/Pérez para os Titãs, o especial “Games”, continua inédito no Brasil,  e os fãs ainda aguardam que o mesmo seja publicado com honras por aqui.

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Panini, vai publicar Games ou não?

Donna Troy. Será que depois de tanto tempo ela perdeu a relevância? Será sua própria existência confundiria ainda mais a complexa continuidade do Universo DC? Ou será que depois de tantas Crises e reboots, nós finalmente aprendemos que as boas histórias transcendem a continuidade e foram, são e sempre serão pertinentes e interessantes, tanto para as gerações futuras quanto foram para as passadas?

O atual Rebirth da DC prova que não, afinal temos toda a Turmã Titã original de volta, incluindo nossa amada Donna Troy. Demorou mas aconteceu.

O que mais além de histórias são capazes de transcender o tempo?

 

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14 comentários sobre “Os Novos Titãs: Quem é a Moça Maravilha?

  1. Alguns errinhos na matéria que está muito boa….1) Synrianaq e Nova Cronos são mundos da nossa dimensão, só estão no outro lado da Via Láctea…. b) as histórias de Donna Troy com o Lanterna Verde Kyle e Jason Todd são no Countdown to Crise Final e não pra Crise Infinita e c)Anjo Negro era a mensageira do ANTI-Monitor fazendo papel análogo da Lyla pro Monitor ( se foi o caso de vc usar o termo “Monitor” como o nick não alcunhado em Qward sendo ele a contraparte antimatéria do Monitor do Multiverso de Matéria Positiva,tudo bem

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  2. Acompanho Terra 2 desde o nº1 porque sempre gostei dos personagens da era de ouro da Sociedade da Justiça que também foi apagada…então espero que com essa esperada mudança Donna Troy retorne e que a DC comics tenha aprendido a ser mais coerente antes de fazer qualquer novo Reboot.E parabéns pelo espetacular texto Garrit…

    Curtido por 1 pessoa

  3. Sou fã da Donna-desde que ela era a Moça-Maravilha-uma pena que mudaram tantas vezes a origem da personagem…Espero que volte com o sucesso que ela merece!Grande texto,Rodrigo!Ah,por uma regra idiota tive que mudar meu nome…mas continuo o mesmo Stark de sempre!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Inomináveis Saudações a todos vós, Mestres e Servos do Santuário!

    Eu tenho este clássico em formatinho, é inesquecível! Mas, sinceramente, devo aqui confessar que nunca gostei da Donna Troy e nem a considero importante para a Cronologia DC (que com os Novos 52 se tornou mais caótica ainda). Ravena, Cyborg, Asa Noturna, Mutano e Estelar eram os personagens que me faziam mensalmente adquirir a revista, nada me dizendo a existência dela.

    Sei que ela tem muitos Fãs e respeito isso, porém sinceridade é tudo para mim. A história é excelente e Esparta rouba toda a cena com sua loucura; e os Titãs Mitológicos merecem ser mencionados, foi muito interessante a visão dada a eles por Wolfman e Perez. Esta foi a melhor fase dos Titãs e é lamentável que o maldito reboot dos Novos 52 os tenho relegado ao Limbo. É como se a DC tivesse jogado no lixo toda uma importantíssima parte de sua Cronologia!

    Para Jim Lee e Dan Didio (ainda são Editores-Chefes da DC) a Continuidade, a Cronologia e até mesmo a História da Editora nada valem para o Futuro e as novas gerações de leitores?

    Curtido por 1 pessoa

      1. Olá Inominável… Bom, eu acho sim que os editores não estão nem aí para a vontade dos leitores, mas as baixas vendas e as constantes críticas vão acabar obrigando que eles voltem atrás em várias decisões.
        Quanto a Donna, sou tão fã da personagem quanto dos outros Titãs, e gosto de pensar nela como uma personagem com identidade própria, sem a sombra da Mulher Maravilha, por isso acho tão interessante seu rito de passagem para “Tróia” conforme dito na a análise acima. Acredito também que os clássicos e novis conceitos podem co-existir, há espaço e fãs para todos!

        Abraços!

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        1. Sim, mas novos conceitos coerentes com o que já foi feito. E o que aconteceu com o Superboy Prime, que estava quase se tornando um vilão interessante? Foi apagado do mapa como os Novos Titãs foram?

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          1. Sim, sem dúvida é preciso que haja coerência. Embora Os Novos 52 sejam alvos de fortes e merecidas críticas, existem algumas coisas boas em alguns títulos…. Quanto ao Superboy Prime, pessoalmente nunca gostei dele, mas acredito que ele ainda irá retornar… Algum dia. Por outro lado, não sei se você acompanha o título “Terra 2” (umas dessas coisas boas feitas nos Novos 52), mas lá existe uma versão maligna do Superman tocando um terror… Não é o Prime, mas não tem como não fazer uma associação entre eles.

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