Resenha literária: “Frankenstein: ou O Prometeu Moderno” de Mary Shelley

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“Pedi-vos eu, Criador, que de meu barro

Me moldásseis homem? Solicitei-vos eu

que me promovêsseis das trevas?”

JOHN MILTON – Paraíso Perdido.

frankenstein

Por Rodrigo Garrit

Segundo a Mitologia Grega, o Titã Prometeu foi aquele gerou a humanidade, roubou o fogo dos deuses e livrou os homens da escuridão. Por esse motivo foi punido duramente, tendo sido aprisionado no topo do Monte Cáucaso onde uma águia devora seu fígado que constantemente se regenerava, condenando-o a um sofrimento que seria eterno caso não tivesse sido ele libertado por Héracles.

Eu prezo muito por evitar a obviedade, mas não poderia mesmo deixar de citar essa passagem da mitologia grega pela qual sou apaixonado. Não por caso, em seu livro Mary Shelley concedeu a Victor Frankenstein a alcunha de “Prometeu Moderno” como complemento ao título de sua obra, pois, assim como o Titã Mitológico, Victor roubou um dos maiores segredos, algo que permeia a humanidade desde os seus primórdios, os mistérios que separam a morte da vida e desafiou a ordem natural das coisas, como um pequeno deus capaz de realizar o que antes era impensável. Ele concedeu vida a um corpo inanimado. Mas assim como o Prometeu  Victor também pagou um alto preço por sua audácia.

“Muito já foi feito, exclamou a alma de Frankenstein – mais, muito mais eu farei; palmilhando as pegadas já impressas, vou ser o pioneiro de um novo caminho, explorar novas potências e desvelar para o mundo os mais profundos mistérios da criação”.

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DIFERENÇAS ENTRE O LIVRO E O CINEMA

Escrito por Mary Shelley 1818, trata-se de um clássico eterno riquíssimo que merece ser relido e estudado pelos admiradores de obras de qualidade.  Shelley revela em um belo prefácio como surgiu a ideia da criação do livro,  que numa visita ao amigo e também escritor Lorde Byron propôs que seus convidados criassem histórias de terror durante uma tempestade. O desafio foi aceito, assim nasceu a história da autora.

O mito da criatura que se popularizou como Frankenstein já sofreu inúmeras intervenções através dos anos, sendo reinventado em um sem número de mídias,  sendo provavelmente, a mais famosa sua versão cinematográfica de 1931 estrelada pelo ator Boris Karloff.  Entretanto o roteiro do filme é muitíssimo diferente da narrativa de Shelley. Depois disso, várias foram as readaptações, paródias e homenagens. Não há como questionar a importância do personagem como ícone da cultura popular,  entretanto é importante não esquecer suas raízes literárias, de onde surgiu originalmente.

Com a polarização do personagem muitos elementos que nunca existiram no livro foram acrescentados à sua mitologia, como por exemplo os famosos parafusos no pescoço do monstro, que em sua versão cinematográfica eram usados para ajustar melhor a máscara ao rosto do ator.

No livro, temos um aprofundamento no personagem Victor Frankenstein, o criador e não a criatura, onde nos é contada parte de sua história, sua formação acadêmica e seu interesse pela ciência e pelos segredos que separam a vida da morte.  Não há um ostensivo castelo numa colina com um laboratório repleto de tubos e potes com órgãos humanos, tampouco uma maca sustentada por correntes que elevada a uma claraboia recebe a descarga elétrica de um raio durante uma tempestade, concedendo assim vida a criatura retalhada deitada sobre ela. Todos esses elementos existem apenas nos filmes. Em sua narrativa, Mary Shelley apenas nos explica que Victor Frankenstein conseguiu descobrir o segredo de gerar vida a partir de um corpo inanimado, um segredo que ele não ousa compartilhar com ninguém temendo que outros passem pela mesma maldição que lhe foi afligida; e que ainda que ele se dispusesse a ensinar a alguém sua técnica profana, o procedimento não poderia ser feito por mentes e mãos leigas tendo ele mesmo tido grande dificuldade, despendido muito tempo e sacrificado muito de saúde até obter êxito em sua experiência.

Victor também não é descrito como um cientista obcecado e insensível, mas um jovem sonhador, amoroso e muito ligado à sua família, vindo a sofrer um grande arrependimento pelo seu ato de criação e o pretenso mal que liberou de forma inconsequente no mundo. Em certa passagem ele revela:

Ninguém pode ter ideia da angústia que senti durante o resto da noite, que passei, molhado e com frio, a céu aberto. Mas não senti inclemência do tempo; a minha imaginação estava ocupada com cenas de maldade e desespero. Considerei o ser que eu lançara em meio à humanidade e dotara de vontade e poder para perseguir seus objetivos de horror, como o que realizara agora, quase como se fosse o meu próprio vampiro, o meu próprio espírito liberto da tumba e forçado a destruir tudo o que me fosse caro”.

Diferente da imagem caricata difundida pelo cinema, no livro, o monstro é descrito da seguinte forma:

Sua pele amarelada mal cobria o entrelaçamento dos músculos e das artérias; os cabelos eram de um negro lustroso e liso; os dentes, de perlada brancura; mas essas exuberâncias apenas serviam para formar um contraste mais medonho com seu rosto enrugado, seus lábios retilíneos  e negros e seus olhos aguados, que pareciam quase da mesma cor que as órbitas de um branco pardacento em que se encaixavam”.

A criatura é erroneamente chamada de Frankenstein por muitas pessoas, mas Victor nunca o nomeou de fato, referindo-se a ele apenas como “Demônio”, “Diabo” e coisas do tipo. Além disso, o monstro é possuidor de grande inteligência, dono de uma alma gentil e apreciador de poesia, muito embora o desprezo e maldade humana viessem a despertar nele uma fúria irrefreável que é, inegavelmente, também um traço característico dos seres humanos.

Grande parte da obra trata da disputa entre Victor e sua criatura, o embate entre eles, a relação de amor e ódio como a de um pai que rejeita seu filho e um filho que em busca da aprovação desse pai é capaz das piores atrocidades.  Ele então dedica sua vida a desfazer aquilo que ele julga ser um mal libertado por suas mãos no mundo, pondo um fim em sua própria criação, empreendendo uma jornada ao redor do mundo caçando a entidade a quem ele próprio trouxe à vida. Em seu juramento de ódio, Victor diz:

“Pela terra sagrada sobre a qual me ajoelho, pelas sombras que vagam ao meu redor, pela profunda e eterna dor que sinto, eu juro; e juro por ti ó Noite, e pelos espíritos que te governam, perseguir o demônio que causou esta desgraça, e até que ele ou eu pereça em combate mortal. Para tanto, eu preservarei a minha vida; para executar esta amada vingança vou mais uma vez ver o sol e pisar a verde relva, que se não fosse por isso desapareceriam para sempre da minha vista. E rogo a vós, espíritos dos mortos, e a vós, errantes ministros da vingança, que me ajudeis  e me conduzais em meu trabalho. Que o maldito e infernal monstro beba da agonia em grandes goles; que sinta o desespero eu agora me tortura”.

O livro traz algumas histórias paralelas narradas por determinados personagens que nos ajudam a entender a evolução da trama como um todo.  Longe de ser um conto de terror superficial, o livro nos remete a uma leitura muitíssimo interessante, com um texto primoroso, a fonte de uma ideia que atravessaria as barreiras do tempo e muito além dos maiores devaneios de Victor Frankenstein, tornaria sua criatura imortal através da qualidade indiscutível de sua história e seu merecido lugar no hall das criaturas fantásticas mais conhecidas e aterrorizantes da literatura.

Um clássico que merece ser reconhecido em sua forma mais pura.

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Em tempo: Como vocês podem ter notado pela capa do livro, além da obra de Mary Shelley, ele também contém “O Médico e o Monstro” de Robert Louis Stevenson e “Drácula o Vampiro da Noite” de Bram Stoker. Esses dois últimos serão resenhados separadamente no futuro.

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