RESENHA: “Morte: Edição Definitiva!”

 

Death___Sandman_by_Saisoto-800x582

Resenha do encadernado em capa dura lançado no Brasil pela Panini Comics.

Roteiros de Neil Gaiman.

Arte de Chris Bachallo, Mark Buckinghan, Mike Dringenberg, Collen Duran, P. Craig Russel, Malcom Jones III, Mark Pennington, Dave McKean e Jeffrey Jones.

MorteEdicaoDefinitiva

Por Rodrigo Garrit

Quem é a Morte?

Veja bem, não perguntei “O QUE” ela é, mas “QUEM”. Mas espera, então a Morte é uma pessoa?

Segundo Neil Gaiman sim.

E quem pode dizer o contrário? Quem poderia provar categoricamente que isso não seja verdade em algum nível? Quem já voltou e se lembra do viu do outro lado?

Perguntas, perguntas, perguntas demais.

Esse artigo era para ser apenas a resenha do encadernado “MORTE: EDIÇÃO DEFINITIVA”, lançado no Brasil pela Panini no mesmo estilo que os volumes de Sandman, ou Sonho se preferirem, irmão da moça em questão. Mas como ler esse volume magnifico e não imergir em tais indagações?

“A moça em questão”. Sim, ela mesma. A Morte.

Em vez de seguir um caminho já trilhado anteriormente por diversos esteriótipos, Gaiman nos apresenta essa moça carismática, inteligente e muito bonita, o tipo de pessoa que você gosta desde a primeira vez que vê, alguém que você quer ter como uma amiga. E sério, o fato dela ser a sua morte não quer dizer que não possam ser amigos. Afinal são só negócios, não é nada pessoal.

Por muitos séculos, ela foi vista como algo terrível, motivo de desespero e angústia. Não espera… ela ainda é vista desse jeito. Porque o fato é que ninguém quer morrer. E sinceramente, eu acredito que não devamos mesmo querer isso. Eu sei que as vida nos leva a lugares escuros que nos fazem querer desistir, que nos fazem questionar os motivos de existir um mundo tão cruel, com pessoas tão cruéis. E queremos que essa dor acabe, mas nunca é simples. A morte então se apresenta como uma saída. Não estou aqui para julgar, apenas expôr meu forte posicionamento contra a interrupção consciente da vida, pois acredito que mesmo para os piores problemas exista uma solução, ainda que venha à longo prazo. Sim, eu sei… não estou na pele daqueles que por ventura um dia decidem morrer. Talvez isso de fato traga paza eles, afinal. Ou talvez traga um sofrimento eterno e muito pior. Ou ainda nenhuma das anteriores. Depende das suas crenças, ou da falta delas.  O que tenho em mim é uma sincera tentativa de compreensão e aceitação da morte, tendo em mente que ela é inevitável. Acho que todos temos a nossa hora e não vivemos nem um segundo a mais do que nos foi reservado ao tempo de nossas vidas.

peachy

Muito me agrada a forma serena como Neil Gaiman trata do assunto, não fazendo da personagem um ser maligno nem benevolente. Ela apenas tem um trabalho a  fazer, um trabalho importantíssimo  que, caso fosse negligenciado, traria o caos e faria da vida algo insuportável. Imagine como seria se não houvesse a morte? Como poderíamos viver o ciclo completo de nossa existência sem passar por todas as fases que naturalmente fazem de nós aquilo que somos?  Se por acaso tivéssemos o “dom” da imortalidade, seríamos os mesmos? Viveríamos da mesma forma? Apreciaríamos a vida com a mesma intensidade?

Sim, sim… eu sei… ainda estou divagando, e até agora nada da resenha. Tudo bem, mas em minha defesa digo que esse é o efeito do texto de Neil Gaiman sobre mim, e quero acreditar, sobre as outras pessoas também. Suas histórias nos fazem pensar no avesso das coisas que tínhamos estabelecido como certo e errado, preto no branco. Não estou dizendo com isso que devemos deixar de seguir certas regras, porque elas nos servem e nos mantém civilizados e em sociedade. Considero abominável a ideia de uma pessoa deliberadamente tirar a vida de outra, não só pelos motivos óbvios, mas pelo simples fato de manipular de forma covarde o futuro desse indivíduo, privando-o de seus futuros sonhos e realizações.

Viver é uma coisa linda. Esse é o maior clichê de todos. É, eu sei. Mas morrer, é a etapa final, o que faz tudo ter feito sentido. Perder alguém eu se ama nos traz sofrimento, dor, saudades… e por isso mesmo é tão importante que cuidemos com toda as nossas forças e com nossa atenção que essas pessoas desfrutem ao máximo de suas vidas. As vezes desperdiçamos tanto tempo com coisas fúteis… nos privamos de momentos intensos de vida por orgulho, vaidade, ódio, inveja e tantos outros sentimentos mesquinhos…  eu sei, parece ser algo que está além do nosso controle. E as vezes está mesmo. Podemos e vamos errar. Temos que errar. Mas precisamos cultivar essa centelha de luz que existe em nós, e tentar consertar esses erros. Cada momento desperdiçado não volta atrás. Essa é a nossa sina e será assim até o dia da nossa morte.

Então… a resenha… certo. Esse volume luxuoso nos traz algumas histórias já publicadas antes nas edições absolutas de Sandman, também publicadas no Brasil pela Panini, onde sua irmã foi a protagonista e roubou a cena do Sonhos do Perpétuos.

sandman1

O volume abre com “O Som de suas Asas”, originalmente publicada em Sandman nº8, onde Morte tem uma séria conversa com seu irmão que acabara de passar por grande provações após ter sido aprisionado por setenta anos por feiticeiros humanos, e após ser libertado, precisa recuperar alguns de seus objetos de poder, tendo inclusive que descer até o inferno para recuperar um deles. Tenso.

Logo em seguida temos a história “Fachada”, originalmente publicada em Sandman nº 20, um conto belíssimo contando o drama de Urânia Blackwell, a Moça-Elemento (que possui poderes similares ao herói Metamorfo). Mas “Rainie” como também é conhecida vive em desgraça pela maldição do seu poder, que lhe roubou a forma humana, fazendo dela uma pária da sociedade, ainda que esses mesmos dons a  tenham tornado praticamente invencível, quase uma imortal. Deprimida e solitária, Urânia decide morrer. Mas não sabe como.

BachaloDeath

Seguindo com o encadernado, temos a minissérie solo da personagem título: ‘Morte: O Alto Preço da Vida”, publicada no original em três partes. Nela descobrimos que a cada cem anos, a ceifadora passa um dia entre os humanos como uma mortal para sentir como é a sensação de estar do outro lado, uma vez que ao fim desse dia ela mesma precisa morrer… e voltar a ser quem era. O grande atrativo desta história é a relação que ela estabelece com os personagens coadjuvantes, uma das especialidades de Gaiman; inserir elementos em seus roteiros e criar personalidades que vão muito além da figuração, tornando-os peças fundamentais e alvo de especial atenção dos leitores.

Continuando o álbum, temos outra minissérie solo da irmã de Sandman: “Morte: O Grande Momento da Vida”, focado nas personagens Hazel e Foxglove (que já haviam aparecido com grande destaque no título mensal dos Senhor dos Sonhos). As duas companheiras agora experimentam um novo estágio de suas vidas, com Foxglove sendo uma cantora famosa, mas por causa disso acaba negligenciando atenção à sua namorada Hazel e o filho Alvie. A Morte entra quase como uma coadjuvante em meio a trama, repleta de diálogos sensacionais e momentos extremamente cativantes entre as duas, alternando conflitos de relacionamentos com verdadeiras lições sobre o que é o amor verdadeiro.

death2g

Prosseguindo, o encadernado traz o especial “Morte: Um conto de inverno”, publicado originalmente na título “Vertigo: Winter´s Edge 2”, uma poesia ilustrada, onde a personagem nos releva algumas de suas descobertas acerca da vida e da morte no decorrer de sua existência.

Logo depois temos a história “A Roda” publicada no especial “9-11”, após o atentado contra as Torres Gêmeas. Neil Gaiman trata do assunto com a delicadeza que o tema exige, mas como justificar ou amenizar o ocorrido? Ao invés disso, ele mergulha na desolação causada pela tragédia e através de um jovem personagem que perdeu a mãe, uma médica, nessa ocasião, mostra que existem vários tipos diferentes de se lidar com a dor.

A história seguinte é “Morte e Veneza”, originalmente publicada no especial “Sandman: Noites Sem Fim”.  Nela temos novamente um personagem humano como narrador da trama, retornando a uma pequena ilha da Itália onde em sua infância teve contato com a personificação da Morte, ocasião em que ela guardava um portão para um local oculto por magia, onde seus habitantes conseguiram enganar o tempo e se manter eternamente vivos. Ou assim eles acreditavam.

anos90

O encadernado também vem recheado de extras, como várias artes de diversos ilustradores nos mostrando sua própria interpretação da Morte. Também são apresentados fotos de objetos colecionáveis feitos em homenagem à personagem, como artes para camisetas, estatuetas em miniatura, action figures, bonecas, anéis, pingentes, relógios, etc, e ao final o roteiro detalhado da história “O Som de Suas Asas”, que marcou a estreia da personagem no título Sandman.

Há também uma história curta certa vez distribuída gratuitamente nos EUA onde a Morte presta esclarecimentos de forma bem descolada sobre doenças sexualmente transmissíveis… com a ajuda de ninguém mais ninguém menos que John Constantine! Apesar da HQ ter sido criada como uma forma de utilidade pública, nela temos uma das falas mais interessantes ditas pela personagem:

“A Vida é uma Doença Sexualmente Transmissível e Invariavelmente Fatal”.

Então é isso… uma edição obrigatória para os fãs dessa carismática irmã de Morfeus.

Ah… só mais uma última coisa… e só por curiosidade… o que é a Morte para você que me lê? Uma garota legal? Um vulto etéreo? Uma paz infindável? Um vazio sem sentido? Ou o começo de algo novo?

Bem meus amigos, eu não tenho essas respostas, mas posso afirmar categoricamente que todos nós um dia descobriremos. Isso é inevitável.

GalleryComics_V_1900x900_20140200_Death-cvr_52e70e78f003b7.12114429

Gostaria de dizer que esse texto é inteiramente dedicado ao Neil Gaiman… sabe, eu não sou tão ingênuo a ponto de achar que ele vai ler isso um dia e, certo, ele não fala português até onde eu sei… mas mesmo assim, que fique registrado aqui… por todo o conjunto da sua obra, desde o universo de Sandman passando por todos os seus livros os quais acompanho com afinco… e com os quais sempre aprendo algo novo, sempre me deparo com alguma reflexão que de alguma forma causa impacto na minha vida em menor ou menor proporção… pela nossa afinidade de ideias,  pela grande admiração que tenho e pela inspiração que representa para mim…

OBRIGADO, NEIL GAIMAN!

death

Anúncios

10 comentários sobre “RESENHA: “Morte: Edição Definitiva!”

  1. A irmã do Sandman é muito gata,mas não quero conhece-la tão cedo…só quando for bem velhinho…ahahahahahahah!!!Ótimo texto,Rodrigo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pra mim, o lado bom da Panini ter lançado os Sandman definitivos foi que os proprietárias das edições da Globo estão se desfazendo nos sebos, e eu estou conseguindo comprar bem baratinho. hehehe
    Mas essa edição da Morte… Ah, essa, eu não resisti. Tive que comprar! E que edição!

    E ótimo texto! A Morte do Gaiman tem um encanto especial sobre os leitores, mesmo. Tô até pensando em tatuar a ankh.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ela é bem mais jeitosinha que a Morte da Marvel, essa que o Thanos é apaixonado… apesar que pela lógica de Neil Gaiman, a morte é sempre a mesma, apesar de assumir aspectos diferentes em outros universos…. ou seja… CARACA ela é a namorada do Thanos????

      rsrsrrsrs

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s