RESENHA: Homem-Aranha – A última Caçada de Kraven!

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“E ergo-me das profundezas triunfante”.

Este artigo contém spoilers. É uma história clássica, das antigas… mas se mesmo assim você não sabe como ela acaba e ainda pretende lê-la, fuja desta resenha.

Roteiro de J.M. DeMatteis

Arte de Mike Zeck e Bob McLeod

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Por Rodrigo Garrit

Eu não acredito em “inveja branca”.

Inveja é para mim ruim em todo sentido, seja qual for a sua cor. Existem níveis diferentes de inveja, tudo bem. Cobiçar o que a outra pessoa tem ou é. Esse é o nível 1. Querer ser e ter o que a outra pessoa tem (e fazê-la saber disso). Esse é o nível 2.

E tem o nível 3…

Cobiçar a pessoa, tirar tudo dela, transformar-se nela… e por fim destruí-la.

Isso bem que poderia ser uma coisa apenas de gibis, mas infelizmente acontece muito na vida real…  Mas não vamos fugir do assunto. Talvez eu esteja sendo injusto com Kraven, o Caçador, abrindo meu texto falando sobre inveja, claramente me referindo ao sentimento que supostamente lhe corroí. Porque, SIM ele apresenta todos os sintomas descritos acima, MAS devemos analisar muito mais cuidadosamente a complexa psiquê do homem que se considera o maior de todos os caçadores.

Como foi devidamente avisado no início, este texto contém spoilers. Eu até pensei em  fazer uma versão sem eles, mas o final dessa história, seu clímax, é um dos fatores; se não O fator que faz dela uma HQ grandiosa e memorável do Homem Aranha. Então lá vai gente…  o Kraven morre no final. Desculpa aí.

Ok, a maioria já sabia disso.  Até porque o próprio título da história já é sugestivo o bastante não? Mas vamos ao que interessa. Então ESSA é a grandiosidade da história? A morte de Kraven? Então o que temos é uma trama apelativa, com um cena dramática usada como caça-níqueis para alavancar as vendas?

NÃO. Definitivamente não.

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Nessa aventura temos Peter Parker usando seu uniforme negro, mas não se trata do simbionte de Venom, mas um traje feito de tecido que ele utilizou por algum tempo. Pessoalmente, gosto muito desse visual TAMBÉM, e no caso dessa história, ajudou bastante a compor o clima sombrio que envolve toda a trama.

Os desenhos são de Mike Zeck, com arte final de Bob McLeod, que nos apresentam becos escuros e chuvosos, homens-rato rastejando pelos esgotos, covas rasas sinistras e aranhas sendo esmagadas sem dó nem piedade. Longe do traço espalhafatoso (mas que eu gosto) de um Todd McFarlane por exemplo, os desenhos dessa HQ são bem “pé no chão”, sem malabarismos estéticos nem contorcionismos impossíveis. Mas nem por isso nos nega ação na medida certa e boas cenas de luta. Quando uma história funciona do jeito que essa funcionou, é por que todo o conjunto da obra contribuiu para isso. Esse tinha que ser o tom.

J. M. DeMatteis é famoso por seu trabalho na DC Comics, mais especificamente por sua passagem como co-roteirista da Liga da Justiça Internacional ao lado de Keith Giffen, onde eles escreviam histórias hilárias envolvendo os personagens em situações no mínimo escatológicas. Mas DeMatteis é um escritor versátil, intercalando esses momentos de humor com histórias mais sérias e profundas (ou nem tanto), mas flertando com vários gêneros, (por exemplo “MoonShadow” e “I, Vampire” – sendo criador desse último) ou até os mesclando como quando escreveu o título do Senhor Destino, onde encontrávamos bem equilibradas doses de humor com misticismo e drama, e cujo final foi LINDO DEMAIS!

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Mas seja em qual gênero ele se aventure, a qualidade é sempre uma constante. Não foi diferente em “A última Caçada de Kraven”. O texto de DeMatteis é primoroso para a HQ em questão. E entenda “primoroso” dentro do contexto das histórias em quadrinhos de super-heróis, não vamos comparar o cara com Camões e nem desmerecer o valor dos quadrinhos como arte. Eu não gosto muito de ter que ficar explicando essas diferenças, e não estou fazendo isso por temer algum comentário pseudo-intelectual sobre essa resenha (se é que haverão comentários). Mas sempre é bom desmistificar preconceitos sobre determinadas formas de expressão artística. Existe o texto de Camões que é primoroso. Existem grafites primorosos pintados pelas paredes das cidades. E existem também primorosos roteiros de histórias em quadrinhos de super-heróis. Eles não estão competindo entre si, estão sendo arte, cada um à sua própria forma.

E, à maneira de ser dos quadrinhos, “A última Caçada de Kraven” é primorosa.

Kraven cobiça o que o Homem-Aranha é, quer se tornar o que ele é e quer destruí-lo. Mas ele realmente o inveja? Será que o que de fato ele sente em relação ao aracnídeo não seria… admiração?

Ele mergulha em um profundo estado de introspecção, retomando as origens mais primordiais de um caçador. Abater a presa não é o mais importante, o grande caçador observa, ele compreende sua vítima, entra em sua mente… torna-se um com ela… e só então ele a abate. Em uma jornada insana pelo autoconhecimento, ele arrasta Peter Parker para um verdadeiro pesadelo, onde, involuntariamente, faz com que ele mesmo tenha sua própria chance de expurgar alguns fantasmas e lidar com algumas toneladas de culpa acumuladas em sua alma. E ao voltar a si retorna, senão totalmente isento de toda a mácula dos erros do passado, com uma revigorada vontade de continuar tentando acertar.

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E Kraven cumpre seu ritual com perfeição simétrica até o final.

Mas espera… se ele é o caçador e o Homem-Aranha é sua presa, não tem alguma coisa errada nessa cadeia de eventos? Ao final do processo, a presa não deveria ser abatida?

O caçador observou, compreendeu e tocou a mente de sua vítima. Tornou-se um com ela.

A presa foi abatida. O caçador venceu.

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8 comentários sobre “RESENHA: Homem-Aranha – A última Caçada de Kraven!

  1. Simplesmente a melhor história do Aranha de todos os tempos!
    Adoro o trabalho do DeMatteis. O cara possui uma sensibilidade que dá um tom bem emotivo às histórias sem ser piegas.
    Gosto de todas as hq’s do Aranha que ele fez. Mas esta, é insuperável!

    Curtido por 1 pessoa

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