RESENHA: “Preacher – A Caminho do Texas” de Garth Ennis.

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“Vou me vingar desse Custer! Vingar o sangue do meu pai! E se minha cara parece um cu… que seja! Vou ser o cara de cu!”

O Volume Um do encadernado publicado no Brasil pela Panini.

Roteiro de Garth Ennis

Arte de Steve Dillon

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Por Rodrigo Garrit

O pastor Jesse Custer tem um pequeno entrevero com os devotos de sua igreja. Palavras são ditas, Bíblias são rasgadas. A humanidade é posta a prova, os limites entre o certo e o errado, o “pode” e o “não pode”, a recompensa e o castigo.

Então um ser chamado de “Gênesis” que é o resultado da união profana e sagrada entre um anjo e um demônio buscou abrigo no corpo do pastor. Com isso ele recebeu o dom divino da palavra, o qual obriga qualquer pessoa a fazer o que ele ordena.

Perplexo, confuso e furioso, Jesse coloca o pé na estrada em busca de respostas. Seu objetivo é nada mais nada menos do que encontrar o próprio Deus e exigir uma explicação.  Nessa jornada supostamente insana, ele cruza o seu caminho com Tulipa, uma ex-namorada, e Cassidy, um vampiro irlandês.

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Eu nunca consegui terminar de ler “Preacher”. E isso sempre me irritou muito. Eu tinha consciência que era um dos melhores quadrinhos que havia passado pelas minhas mãos. Eu sabia que era aquela rara combinação de texto e arte inspiradíssimos que preenchiam satisfatoriamente todas as minhas exigentes sinapses de entretenimento. Era a leitura que me lembrava o porquê de eu gostar de quadrinhos, e me motivava a continuar gostando e defendendo essa arte contra qualquer um que fizesse pouco caso dela. Era o gibi do qual eu sempre queria mais… era o gibi do qual eu sempre obtinha menos.

Eu não sei quantas editoras já tentaram publicar “Preacher” no Brasil, nem me interessa. O fato é que nenhuma delas havia conseguido concluir a série. A revista sempre era interrompida. Desaparecia das bancas por meses… anos… até quase cair no esquecimento. Quase.

Algumas pessoas falam sobre uma “maldição” dos títulos da Vertigo no Brasil, que faz com que nenhuma editora consiga finalizar uma série com qualidade e constância. E eu não estou aqui pra ficar bajulando ninguém, mas o fato é que dentre todas, a Panini foi a única que conseguiu concluir – isso mesmo – CONCLUIR a série Preacher no Brasil, em encadernados luxuosos e caríssimos. Sim, nada é perfeito. Não que a série não merecesse esse tratamento. Mas que se dane, depois de todos esses anos de espera, eu não ia deixar uma coisa tão banal quanto… dinheiro…  me impedisse de…

Ok, eu prefiro nem pensar no quanto eu gastei somando o valor da compra de todos os volumes. Mas era Preacher, e eu precisava terminar de ler essa história. Tê-la na minha estante.

Obrigado Panini, sua maldita.

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Eu conheci o trabalho de Garth Ennis quando ele escrevia o título Hellblazer, pra quem não sabe (sério?) a revista protagonizada por John Constantine. O que eu posso dizer? Esse cara não tem medo de queimar no inferno? Esse é o preço a pagar por escrever histórias tão boas?

O artista da série, Steve Dillon, eu também conhecia do mesmo título. Imaginar uma revista diferente do que fizeram em Hellblazer produzida por eles era algo que me deixava meio com o pé atrás, afinal, como ir além daquilo? Mas obviamente eu tinha muita curiosidade para saber o que eles ainda tinham pra contar.

Confesso que meu primeiro contato com Preacher se deu ao ler uma revista emprestada de um amigo, o qual INSISTIU para que a lesse. “Você vai se amarrar nessa revista, cara, vai por mim. Leia isso” ele dizia.

É, o cara me conhecia.

Fora o lance de estar sempre buscando novas edições e observando as editoras afundando e levando a revista junto, foi uma das leituras mais marcantes da minha adolescência e definiu muito do que seria o meu gosto para quadrinhos, filmes, livros etc.

Garth Ennis me ensinou sobre fúria. Sobre despejar ódio sobre as páginas, vociferar blasfêmias sem pensar em consequências, me mostrou que é preciso pensar além das doutrinas, questionar sempre, nunca baixar a cabeça perante as ordens infundadas. Acho que eu sempre tive isso em mim na verdade, mas leituras como Preacher ajudaram a inflamar essa centelha.

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É claro que eu sei o quanto a revista é polêmica, mas sinceramente? Se algumas freiras ou o próprio Papa queimassem exemplares de Preacher em praça pública, o que isso diria sobre a série?

Muito mais importante do que impor ao outro o que é o certo, é permitir que ele tenha liberdade para escolher aquilo em que deve acreditar, ou deixar de acreditar. Livre para buscar Deus ao seu próprio modo, ou buscar a si mesmo, o deus que habita em você, ou deuses, ou nenhuma das anteriores.

Ateu ou Politeísta, Cristão ou Hindu, Satânico ou Xamanista. Que ninguém interfira em nosso livre arbítrio.

E é por isso que eu escolhi acreditar em Preacher… como uma das maiores obras das histórias em quadrinhos de todos os tempos.

E você? No que acredita?

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4 comentários sobre “RESENHA: “Preacher – A Caminho do Texas” de Garth Ennis.

  1. Que bom que a Panini concluiu a série no Brasil…antes (quando eu era Bilionário)era fácil comprar essas edições…agora tá difícil…ahahahahahahah!!!Um abraço de Ferro Rodrigo!

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  2. Eu tive que ler a saga toda em scans até conseguir completar a coleção. No meu caso, eu tenho edições de várias editoras, tudo misturado. haha

    Garth Ennis também mudou meu modo de gostar de hq’s, literatura, filmes, seriados, etc. O cara sabe como criar pessoas reais em suas histórias. Ele parece ter como filosofia o que o roteirista Luis de Abreu (Narradores de Javé) dizia nas oficinas de roteiro, que é “procurar sermos o mais cruel e maltratar nossos personagens sempre que possível.”

    Curtido por 1 pessoa

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