RESENHA: “Supremo – A História do Ano” de Alan Moore.

 

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“Você nunca me matará realmente, Grande Imundo, não mais que poderia matar Jean Genet, Isidore Ducasse ou Mallarmé! Não enquanto ainda posso… unnnngh… arrancar meu próprio coração em uma declaração final que justaponha arte, misticismo e absurdez!”

“Supreme – The Story of the Year” originalmente publicada nos EUA pela Image Comics, Maximum Press e Awesome Comics. Saiu no Brasil pela BrainStore Editora.

Roteiro de Alan Moore.

Desenhos de Joe Bennett, Keith Giffen, Dan Jurgens, Richard Horie,  J. Morrigan, Mark Pajarrilo, Rick Veitch e Chris Sprouse. Arte-final de Norm Rapmund, Al Gordon, Bill Wray, e Jim Mooney. Arte adicional e capas de Alex Ross.

Supremo criado por Rob Liefeld.

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Por Rodrigo Garrit

Certa vez, numa pequena cidade chamada Littlehaven, um menino encontrou um meteoro – mais tarde batizado de “Supremium” –  que a princípio o deixou doente, mas para sua surpresa acabou lhe conferindo grandes poderes! Decidido a usar esses dons para o bem da humanidade, adotou a identidade de Kid Supremo. Já adulto, retirou o “Kid” do nome e mudou-se para a cidade de Omegapolis. Escondendo esse segredo do resto do mundo, ele divide-se entre o pacato desenhista de quadrinhos Ethan Crane e o maior herói de todos os tempos, o Supremo!

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Imagine a essência de toda a história do Superman desde sua criação até os dias atuais condensada numa única realidade, alheia a revisões e alterações na continuidade. Imagine se tudo fosse válido, se tudo fizesse sentido, se até as partes mais pueris se transformassem em homenagens deliciosamente saudosistas e pertinentes dentro desse contexto histórico. Imagine se esse super-herói pudesse ser capaz de viver numa só vida todas as suas vidas, ser o que foi nas Eras de Ouro, Prata, Bronze e Moderna dos quadrinhos e ainda assim ser algo representativo para as novas gerações, um ícone irretocável, transitando por realidades paralelas; através do tempo, do espaço e das dimensões, transformando sonhos em realidade e interagindo com versões de si mesmo em prol de um mesmo objetivo. Mais que um personagem, uma peça fundamental na cadeia evolutiva da civilização, um fenômeno cósmico, um dos pilares do universo, do multiverso, ominiverso ou seja lá como queira chamar. Sem precisar apagar nada do seu passado, mas ao contrário, aceitando todo e cada evento ocorrido desde que a primeira ideia sobre ele surgisse e evoluísse até se obter o resultado final, que na verdade ainda está se desenvolvendo, atravessando o cosmos, a magia, a ciência e a imaginação. E com isso, apesar da contradição que a própria execução dessa ideia exige, chegar a uma história coesa, inteligentíssima e provavelmente a maior aventura do Superman de todos os tempos. Aquela em que todos os seus conceitos, toda a sua mitologia, e todos os seus coadjuvantes foram aproveitados e ajudaram a construir essa obra prima das histórias em quadrinhos.

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Algo ambicioso, não? Em um primeiro momento eu diria até mesmo impossível de ser realizado. Mas para o nosso assombro e deleite, tal feito foi consumado por talvez um dos poucos autores na Terra capazes dessa façanha. Sim, Alan Moore, o mago supremo dos quadrinhos escreveu a história definitiva do Superman, utilizando todos os elementos citados acima e elaborando uma narrativa impossível de não emocionar os fãs do personagem.

Só tem um detalhe. Ele não usou o Superman.

Os que conhecem o trabalho do quadrinhista Rob Liefeld, sabem que ele fez muito sucesso nos anos noventa trabalhando para a Marvel, até que juntou-se a Jim Lee, Todd McFarlane, Erik Larsen e outros artistas para fundar sua própria editora, a Image Comics.

Nessa nova editora eles apresentaram suas próprias criações . Nenhum dos personagens pode ser apontado como algo cem por cento original. Não é preciso analisar muito para perceber que nos Wild C.a.t.s. de Lee, no Spawn de McFarlane, no Dragon de Larsen e no YoungBlood de Liefeld existem traços visíveis dos X-Men, Homem-Aranha e Hulk. Estou apenas constatando o óbvio aqui, mas apesar dessas “similaridades”, os personagens foram ganhando identidade própria com o tempo, e de fato, em sua maioria contribuíram de alguma forma com algo de novo. Porém de todos os autores citados, Liefeld sempre foi o mais exagerado no quesito – por falta de um termo mais especifico – PLÁGIO!

Tudo isso foi dito apenas para esclarecer que ele criou um personagem chamado “Supremo”, totalmente calcado na figura do Superman. Isso poderia ter sido uma coisa ruim. Mas através do Supremo, Alan Moore – brigado de forma irremediável com a DC Comics – pôde contar sua história definitiva sobre o Super-Herói.

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Passado, presente e futuro se fundem para contar essa história, que é ao mesmo tempo propositalmente clichê, homenagem, deboche,  e impecavelmente original. O cuidado do autor com a criação da estrutura de toda a trama apenas demonstra seu grande conhecimento do tema, aliado a sua inegável técnica apurada e seu talento único como narrador. Nas histórias de flashback,  todo o estilo artístico é mimetizado à forma como as HQs eram feitas no passado, desde os traços mais simples até o texto, propositalmente ingênuo. Aí reside a genialidade de Moore: fazer com algo que aparenta ser simples tenha um significado maior dentro do contexto geral da história. Ele havia feito algo parecido quando escreveu a revista “Miracleman”, por sinal,  um personagem acusado de ser um plágio do Capitão Marvel (Shazam), que por sua vez foi também acusado de ser um plágio do Superman.  O que nos leva a pensar na importância dele como ícone super heroico, no poder de sua influência… é como se de alguma forma, tudo relacionado ao gênero retornasse para ele. O próprio Superman já foi acusado de ser um plágio de um personagem das antigas revistas Pulp – Doc Savage – Mas a necessidade de criarmos esse homem supremo vem desde os tempos da Grécia antiga, com Hércules, ou provavelmente antes disso… mas não importa quem foi o homem mais forte da pré-história. Ele era o Superman. Não importa o nome ou o rosto que ele usava… ele sempre esteve presente no inconsciente humano.

Quando surgiu o primeiro homem… surgiu também em sua fantasia o Super-Homem.

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Bem, estou divagando. O fato é que há anos Alan Moore vem nos mostrando incansavelmente que é possível escrever histórias extraordinárias partindo das premissas mais simples. Sem precisar desmontar o universo e recriar tudo de novo. Ou até mesmo fazendo isso, desde que sirva à história, não para que tenha apenas um efeito chocante nos leitores. Porque o choque realmente atrai atenção, mas logo a poeira abaixa, e tudo volta a ser como antes. Não, como antes não… fica pior. Uma sensação de que a realidade pode ter virado do avesso mas nada verdadeiramente mudou. Obviamente é preciso produzir revistas rentáveis, mas pelo bem da indústria e sua para garantir que sobreviva, não se pode atender os desejos imediatistas dos leitores, sedentos por mais violência, mais sangue e menos conteúdo. É preciso dar a eles o que eles precisam, não o que eles querem. Eventos bombásticos passam. Boas histórias são eternas.

Tão eternas quanto esse ícone da nossa esperança… nosso sonho infantil, nossa inspiração e modelo de um ideal supremo, que talvez nunca possa ser alcançado mas que deve ser constantemente buscado. Eterna como essa grande história sobre a qual nós gostamos tanto de ouvir, a respeito desse Super-Homem, de muitos nomes e rostos.

Nós… os super sonhadores.

ross

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2 comentários sobre “RESENHA: “Supremo – A História do Ano” de Alan Moore.

  1. A capacidade coletiva de sonhar com um Ideal Supremo de Humanidade sempre esteve presente em nossas civilizações. Várias e várias Eras aqui tiveram vez, mas o Sonho Supremo permanecia sempre no Inconsciente. Superman, O Supremo, é a canalização do Sonho da Perfeição Humana, um Ser pulsante e Real no Mundo da Imaginação que contém todos os traços daquele Sonho realizado. Vou buscar esta obra de Moore, se ainda estiver disponível, para ver melhor a concretização artística do Supremo Que É Em Si Mesmo.

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