RESENHA: “Happy” de Grant Morrison e Darick Robertson

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“Qual é a sua desculpa por existir?”

Resenha do encadernado “Happy” da Image Comics publicado no Brasil pela Devir.

Roteiro de Grant Morrison, arte de Darick Robertson.

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Por Rodrigo Garrit

O ex-policial Nick Sax experimentou sua cota de tragédias. Consumido por uma rotina de investigação a crimes violentos, um casamento deteriorado e afogado pela sujeira de um sistema corrupto e dominado pela máfia, ele viu tudo o que mais prezava ruir, deixando-o sozinho num mundo cinza escuro dominado por sangue, drogas e perversões. Desacreditado, tornou-se um assassino de aluguel lidando com um doença de pele e nenhuma vontade de viver.

Até que um cavalinho azul falante apareceu para mudar a sua vida!

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Grant Morrison já nos mostrou sua inclinação para metalinguagem e a inserção de fantasia em cenários realistas em outros trabalhos, mas “Happy” é o ponto alto dessa sua linha narrativa. Similar a “Joe, O Bárbaro” da Vertigo onde um menino tinha alucinações (ou não) com um mundo imaginário, ou mesmo a utilização do personagem “Bat-Mirim” em sua passagem pelo título do Homem-Morcego por exemplo. Mas dessa vez a voz da imaginação é o fio condutor de uma trama, cujo pano de fundo é demasiadamente pé-no-chão, uma visão violenta e infelizmente muita mais próxima da realidade do que as histórias fantásticas que estamos acostumados. Esse contraste ao fazer Nick Sax entrar em contato com Happy, o citado cavalinho azul falante nos causa um impacto de início, mas no decorrer da trama os diferentes gêneros vão se harmonizando até chegarmos ao ponto de perceber que não é uma história policial e nem uma história de fantasia; trata-se de um jogo mental aberto a inúmeras  possibilidades, flertando com ambas e não sendo fiel a nenhuma.

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O roteiro não é dos mais complicados, ainda mais em se tratando de Grant Morrison; existe uma história repleta de fatos interligados que em dado momento se encontram e o levam ao seu clímax. Talvez a intenção tenha sido essa mesma… pegar algo que se vê facilmente em filmes policiais violentos, repletos de reviravoltas, mas fazer isso apenas como um cenário para o elemento lúdico, a verdadeira razão de ser da narrativa.  A trama se passa em época de natal, o que nos concede um segundo contraste: em plena data festiva onde as pessoas espalham amor e paz, um assassino e estuprador de crianças vestido de Papai Noel está em curso  de ação pronto para fazer novas vítimas.

Da concepção da ideia, até a construção e desenvolvimento da história por Morrison percebemos o quanto seu plano foi ao mesmo tempo simples e ambicioso; sim ele poderia ter alcançado um nível maior de complexidade, mas de certo modo a história funciona bem do jeito que foi escrita, sem grandes explicações mirabolantes. As coisas apenas são como são e ponto final. Ao final da leitura fica a sensação de “como ninguém nunca pensou nisso antes”, até nos darmos conta de que sim, coisas similares já foram feitas e não poderia deixar de citar aqui o filme “Uma Cilada para Roger Rabbit”, onde os seres humanos de carne e osso interagem com personagens de desenhos, por exemplo, mas o toque mordaz dado por Morrison logo em seguida amenizado sutilmente pela inocência de Happy abre um portal entre a infância e fase adulta que nos esforçamos tanto para manter fechado por medo de que um contamine o outro sem que possamos nos arriscar a descobrir que na dosagem correta, eles podem coexistir e acrescentar lembranças de uma época mais pura e ensinamentos que só adquirimos com a experiência.

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Os desenhos de Darick Robertson contribuem em muito nesse esforço de Morrison em contar sua aventura em um mundo bem próximo da realidade, sujo, violento e desgastado, com pessoas sérias, frias e sem sonhos. A mágica acontece em grande parte pela perícia do artista em retratar tão bem o ser imaginário, caricato e extremamente otimista tentando cumprir sua missão nesse lugar desolado.

Leitura despretensiosa e distante dos famosos roteiros complicadíssimos de Morrison, Happy é pra ser consumido em dose única, sem contra indicações.

Leia e seja feliz.

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3 comentários sobre “RESENHA: “Happy” de Grant Morrison e Darick Robertson

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