Batman: O Cavaleiro das Trevas – A Raça Superior


Ou: “Soluções rápidas para um mundo pequeno”.

Por Henry Garrit

Pra quem ainda não leu: Contém spoilers.

A cidade engarrafada de Kandor é um pedaço do planeta Krypton que fora abduzido por Brainiac e encolhido para sua bizarra coleção. A mesma se encontrava há anos em posse do Superman em sua Fortaleza da Solidão, sem que ele nunca tenha conseguido uma forma de trazê-la ao seu estado original. Mas nem todos os kandorianos são vítimas inocentes. Quando o líder de uma seita consegue manipular Lara, a filha de Kal-El e da Mulher Maravilha, esta usa as habilidades de Ray Palmer para libertar os kandorianos e fazê-los voltar ao seu tamanho normal. No entanto, eles não têm intenção de se submeter a humanidade e decidem tomar o planeta para si. Lara tem então que decidir se fica ao lado deles ou dos ideais de seu pai, o qual se encontra exilado, e se vai enfrentar a fúria de sua mãe e todas as amazonas quando os kandorianos reclamam seu irmão, Jonathan. Esse conflito mundial faz com que vários heróis que estavam afastados retornem, e claro, Bruce Wayne, que voltara a ativa secretamente, precisa reassumir o manto do morcego e comandar um levante contra os kryptonianos.

Pois é, ele fez de novo.

Sim, eu estou falando do Frank Miller. Mas de Bruce Wayne também.

O Cavaleiro das Trevas já está consolidado como um clássico eterno dos quadrinhos, um divisor de águas que ajudou a mostrar o caminho que os heróis viriam a tomar nos anos seguintes, para o bem ou para o mal.

Muitas pessoas, acreditam que a obra dos anos 80 funciona muito bem de forma auto-contida, e que continuações e preâmbulos são desnecessários, sendo feitos apenas para garantir boas vendas, sem se importar com a qualidade que o original proporcionou. Esse fato é objeto de intermináveis discussões, sendo que existe verdade em cada uma das interpretações do ocorrido. Sim, as editoras de quadrinhos querem dinheiro, elas vivem disso e precisam garantir que as vendas sejam cada vez maiores. Por outro lado, ao se trabalhar com arte (deixando aqui definitivamente a afirmação de que quadrinhos, sim, são arte) é preciso que a qualidade não fique limitada a essa repetição de fórmulas e manobras editoriais que se aproveitam de sucessos passados para reacender o mercado que ultimamente tem oscilado, mas que depois de uma grande queda, apresenta ainda sinais de vida, muito embora precise ser constantemente remodelado para se adequar aos novos tempos.

É claro que existem milhares de fãs das antigas que são fiéis, mas esses fãs precisam ser renovados, coisa que tem acontecido de forma curiosa através da transposição dos personagens de quadrinhos para o cinema, games, animações e séries de tevê, ainda que nem sempre sejam cem por cento de agrado geral, conseguem manter esses personagens no radar e consequentemente, essa audiência se volta para os quadrinhos, o que gera um ciclo estranho, que faz as HQs se tornarem quase que como pilotos de teste para as outras mídias. Com o Cavaleiro das Trevas não é diferente e a obra já foi adaptada e inspirou animações e filmes. Mas essa não é a questão aqui.

A primeira continuação, O Cavaleiro das Trevas Ataca Novamente, foi recebida com expectativa e gerou opiniões controversas. O autor foi duramente criticado por alguns fãs que viram em seu roteiro e arte uma brusca queda em relação ao que fizera anteriormente. Outros, enxergaram nessa abordagem um tom de deboche e desdém para com a indústria, indo na direção oposta ao próprio conceito da continuação em si. Afinal, ela foi feita para gerar renda, ou havia uma nova história de qualidade que precisava ser contada?

Apesar das críticas, a continuação de Cavaleiro das Trevas foi um sucesso, mas mudou radicalmente a reputação de Frank Miller. Antes, ele era um artista intocável e irretocável pela maioria. Depois disso (e sejamos francos, graças a outras de suas obras mais recentes), as pessoas começaram a admitir que seu deus tinha os pés de barro, e que era suscetível a falhas também.

Mesmo com esse novo status, ou talvez por causa dele, Miller aceitou voltar a esse universo icônico, fechando (?) a trilogia de O Cavaleiros das Trevas, com uma nova história, a Raça Superior.

Desta vez, no entanto, ele teve apoio do habilidoso roteirista Brian Azarello, e a arte ficou à cargo de Andy Kubert, o qual emulou o próprio traço de Miller (ainda que o seu próprio não seja tão diferente) com a arte-final de Klaus Janson, que acompanhara Miller em todas as suas incursões anteriores ao Cavaleiro das Trevas. Mas Miller não deixou de contribuir com seu pincel, fazendo a arte de diversas capas e também da maioria das histórias Backup que vinham em forma de um encarte dentro de cada uma das nove edições da série.

O grande problema ao meu ver, é a eterna comparação ao mito que fora estabelecido com a obra original, exatamente o mesmo que ocorre com Watchmen e seus prelúdios e continuações. Dificilmente será possível trazer de novo o sentimento de inovação concebido por essas obras, então tudo o que for feito em cima disso passará por esse crivo de julgamento. Entretanto, se conseguirmos esquecer as comparações, poderemos ver que se trata de uma história mediana, apesar de suas diversas falhas, sendo que a principal delas é tentar ser uma extensão de um clássico. Retirado esse peso, o que temos é uma aventura “Elseworld” do Batman e alguns dos medalhões da DC, divertida em alguns momentos, e que se leva a sério demais em outros.

O desenvolvimento de alguns personagens e seus destinos nesse universo paralelo acendem a curiosidade do leitor, mas algumas explicações são rápidas demais e feitas de modo simplório, o que causa decepção. As grandes estrelas continuam sendo mesmo Bruce Wayne e Carrie Kelley, e esse é o grande acerto da história. Acompanhar a evolução de Carrie foi uma das melhores coisas, e depois de vários codinomes e uniformes, ela parece ter finalmente se encontrado. O Batman não decepciona com sua personalidade austera e sua inteligência que faz com que todos sempre acreditem que ele está cinco passos à frente. A grande questão era ainda como um homem de idade avançada e repleto de cicatrizes e sequelas após anos de combate ao crime ainda poderia ser um vigilante capaz de enfrentar seres com o poder do Superman.  A resposta a isso, além das já mencionadas “explicações simplistas” talvez seja uma nova polêmica a ser discutida pelos próximos anos, e embora faça sentido de certo modo, todos os efeitos colaterais foram simplesmente ignorados: Bruce rejuvenesce após ser jogado pelo Superman num Poço de Lázaro. Com isso, temos aberta a possibilidade de mais continuações no futuro. Mas será que isso é mesmo necessário?

Pra finalizar, o que temos é o Batman do Frank Miller voltando com uma nova história muito longe do brilhantismo do clássico original, e que não chega nem perto de seus dias de glória. MAS se você puder se divertir com ela sem esperar que seja a nova revolução que irá mudar os quadrinhos para sempre… pode até valer à pena.

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