Quarteto Fantástico: Ações Autoritárias

Ou: “Quem morreu e deixou você como rei?”

Por Henry Garrit

O Dr. Destino foi derrotado mais uma vez. Mas para Reed Richards, o Sr. Fantástico, isso não é o suficiente, pois por experiência ele sabe que mesmo a morte não é capaz de impedir a fúria vingativa de Victor Von Doom, e com isso em mente, decide uma manobra inédita: Invadir a Latvéria, o Reino de seu inimigo, e tomá-la para si, desfazendo toda a obra de seu algoz, destruindo não apenas seus equipamentos, armas e pretensos planos futuros, como também quebrando a confiança do povo em seu governante, fazendo-os ver quem ele realmente é. Claro que essa ambiciosa jogada não passaria desapercebida pelo Onu ou pela Shield, e em meio a crises de consciência e dilemas morais, Richards, o novo monarca da Latvéria, deverá enfrentar revoltas populares e desavenças com seus próprios amigos até enfim concluir sua investida contra o Dr. Destino após o seu pretenso retorno.

O roteirista Mark Waid resolveu tomar um caminho diferente ao iniciar o arco “Ações Autoritárias”, colocando Reed Richards, e por tabela todo o Quarteto Fantástico na ofensiva, ao invés de esperar pela próxima tragédia arquitetada pelo seu maior inimigo.  Essa mudança de status quo nos faz pensar que Reed poderia estar sendo controlado ou mesmo possuído por Destino, em mais um de seus planos mirabolantes, mas a verdade é que depois de anos se mantendo atrás da linha que divide alguns limites morais, ele se cansou de ver sua família e ele próprio sendo vítimas da crueldade de Von Doom. O grande problema vem então das consequências dessa escolha, uma vez que o radicalismo gera situações extremas que causam uma onda de violência que acaba se voltando contra Richards e sua família, criando assim um ciclo que deixa no ar vários questionamentos, sendo que o principal deles é:

A melhor defesa é o ataque?

Ben Grimm, o Coisa, funciona como o coração da equipe e sua bússola moral. Ele é o primeiro a perceber que seu amigo está passando dos limites, entra numa batalha ética contra o Sr. Fantástico, e acaba pagando o preço por isso. No entanto seu sacrifício desperta uma busca insana por redenção em Reed. Nesse momento o roteiro deixa clara a genialidade científica do personagem,  fazendo com que ele seja capaz de construir qualquer equipamento para realizar qualquer proeza. E é através dessa saída simples que o Quarteto faz o que sabe fazer melhor: Explorar os mistérios da existência e desbravar o incompreensível para ajudar um amigo. Com isso em mente, o grupo parte em busca de consertar seus erros e como consequência encontra seu criador, literalmente, num dos finais mais surreais da carreira da equipe, porém muitíssimo satisfatório para os fãs de um modo geral.

Publicado originalmente em 2003 nos EUA, a história é ilustrada por Howard Porter e pelo falecido Mike Wieringo, ambos parceiros de Waid em diversos outros projetos, que conseguem dar o tom correto que o roteiro pede, com um Reed Richards deformado não apenas fisicamente, mas também em suas atitudes, sem deixar de ser, ainda que equivocado, um dos maiores heróis do universo Marvel.

Mark Waid é um dos profissionais de quadrinhos mais conceituados do meio, e embora essa história apresente algumas fragilidades (soluções simples demais, e ausência de consequências graves para situações criadas com muita dramaticidade) é uma HQ divertida, que explora um lado sombrio de Reed Richards, fazendo dele não um vilão, mas um ser humano capaz de cometer erros de julgamento, principalmente quando sua família está ameaçada, mas que também sabe reconhecer suas falhas e busca remediar suas ações. Apesar dessa premissa que guia toda a narrativa de “Ações Autoritárias” ao fim, o que temos é o Quarteto Fantástico sendo ele mesmo, e não perdendo seu heroísmo característico.

No mais, é uma grande aventura do Quarteto com a belíssima homenagem ao seu cocriador, Jack Kirby, e uma lembrança do quanto essa equipe faz falta à Marvel.

 

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