Mito ou realidade? Será que existem semelhanças entre a HQ Brasileira “FIKOM – O Herói do Universo dos Sonhos” e a versão de Neil Gaiman para “Sandman”?

De tempos em tempos circula na internet e em fóruns de discussão de quadrinhos uma teoria dizendo que o Sandman de Neil Gaiman, um dos maiores sucessos do selo adulto Vertigo de todos os tempos, é um plágio de um quadrinho brasileiro do fim dos anos 60 chamado Fikom – O Herói do Universo dos Sonhos!

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Fikom no traço de Shiraky (Julio Ramos) e Sandman por Roger Cruz.

Será que essa história tem fundamento?

Primeiro, vamos ressaltar algumas informações, para tentar entender de onde teria surgido o conceito por trás do personagem.

– Hipnos é o deus do sono na mitologia grega. Personificação do sono, e da sonolência;  Hipnos é um dos daemons gregos: deuses que interferem no espírito dos mortais. Segundo a Teogonia de Hesíodo, ele é o filho sem pai de Nix, a deusa da noite, mas outras fontes dizem que seu pai é Érebo (As Trevas Primordiais, que personifica a escuridão profunda e primitiva que se formou no momento da criação). Hipnos tem nove irmãos, entre os quais o mais importante é seu gêmeo Tânato, a personificação da morte. Hipnos era o responsável pelo descanso restaurador de todas as criaturas terrestres, enquanto ele pairava sobre a superfície. A Ilíada, de Homero, afirma que Hipnos mora em Lemnos, junto de sua esposa Eufrosina, oferta da deusa Hera por seus serviços prestados. Normalmente, ao repousar, adotava a forma de uma ave. Ele e sua esposa tiveram os oneiros, seus filhos, responsáveis por distribuir os sonhos: Morfeu – deus dos sonhos bons ou abstratos; Ícelo – deus dos pesadelos; Fântaso – criador dos objetos inanimados, monstros, quimeras e devaneios que aparecem nos sonhos e ficam na memória; Fantasia – única filha e gêmea de Fântaso, deusa do delírio e da fantasia.

– Em 1817, foi publicado “O Homem da areia” (Der Sandmann), do alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann. É o primeiro conto do livro intitulado Die Nachtstücke (Noturnos). No conto, Hoffmann narra a história de Natanael, que discorre sobre suas lembranças sobre a casa em que cresceu, onde as crianças eram postas na cama bem cedo, pois segundo era dito pelos adultos, o “Homem da Areia iria chegar”. A babá contara a Natanael que o Homem da Areia era um homem perverso que chegava quando as crianças não iam para a cama, e jogava areia nos olhos delas, fazendo com que saltassem fora. Ele então colocava os olhos num saco e os levava para alimentar seus filhos na lua. Embora tenha sido publicado em 1817, o manuscrito é datado de 16 de novembro de 1815.

– Em 1939, um personagem chamado “Sandman” fez sua primeira aparição nos quadrinhos, na revista Adventure Comics #40. Criado por Gardner Fox e Bert Christman, ele era Wesley Dodds, um detetive que usava uma máscara e uma pistola de gás para caçar criminosos, usando o gás para fazê-los dormir. Com o tempo ele ganhou um parceiro mirim chamado Sanderson “Sandy” Hawkins conhecido também como Sandy, O Garoto de Ouro. Anos mais tarde, já como membro da Sociedade da Justiça, ele se tornaria o novo Sandman em homenagem ao seu mentor.

– Em 1963, Stan Lee e Steve Ditko criaram o Homem-Areia (The Sandman, em inglês) fazendo dele um dos piores inimigos do Homem-Aranha. Esse Sandman é literalmente um homem feito de areia, capaz de transformar o seu corpo e moldá-lo em formas arenosas, podendo reverter de volta depois.

– Em 1968, em pleno regime de ditadura militar no Brasil, onde várias manifestações artísticas eram constantemente censuradas, o prolífico artista Fernando Ikoma criou Fikom, um herói que se manifestava nos sonhos de seu alter ego.

– Em 1974, criado por Jack Kirby e Joe Simon, surgiria pela DC Comics, uma nova versão de seu Sandman, Garrett Sanford, um professor de psicologia que ao ficar preso no Sonhar, salva a vida de uma figura importante (há sugestões de que seria um presidente dos EUA), que estava em coma enquanto era aterrorizado por um poderoso monstro de pesadelo.

– Em 1989 as primeiras histórias de Sandman, também conhecido como Morfeus, foram publicadas dentro do selo adulto da DC, a Vertigo, a partir da intenção dos editores em reformular o Sandman da Era de Ouro (Wesley Dodds), de acordo com a proposta do escritor Neil Gaiman. O Sandman original (que segundo o novo conceito teria se inspirado em Morfeus que lhe aparecia em sonhos) também teria sua série própria na Vertigo, chamada Sandman Mystery Theatre, ambientada na década de 30 em estilo pulp/noir.

Agora, vamos aos fatos!

Primeiramente, o Sandman não é de Neil Gaiman. O personagem (dos quadrinhos) foi criado por Gardner Fox e Bert Christman em 1939, tendo depois uma nova versão pelas mãos de Jack Kirby e Joe Simon em 1974. Anos mais tarde, Gaiman seria convidado pela editora da Vertigo, Karen Berger, para escrever um título para o selo. Ele manifestou o desejo de escrever histórias para o Vingador Fantasma, mas o personagem já estava sendo reformulado. Então, coube a Gaiman compor sua própria versão de Sandman.

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Capa de Sandman Nº 1, pela Vertigo.

Logo, Neil Gaiman não é o criador de Sandman, apenas foi contratado pela DC, que pediu que ele fizesse uma releitura do personagem. E ele mudou praticamente tudo sobre o ele, estabelecendo uma mitologia com bases sólidas e um enredo consistente, embora tenha usado elementos dos Sandmen anteriores, em nada o personagem se assemelhava ao seus homônimos das décadas de 30 e 70.

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Morfeus e sua irmã, Morte, no traço do brasileiro Rafael Albuquerque.

Além disso, Gaiman usou e abusou de mitologia grega, nórdica, africana e outras fontes históricas, mesclando-as com sua narrativa, sem falar nos personagens bíblicos, por exemplo Cain e Abel (que já existiam nas revistas Casa dos Mistérios e Mansão dos Segredos), costurando tudo numa história elogiada por público e crítica. Seu Sandman é um Perpétuo, e ele tem vários nomes, mas é mais comumente chamado de Morfeus. É um ser que existe desde tempos imemoriais e serve a um propósito específico, ser o Senhor dos Sonhos. Após sua morte, ele foi substituído por Daniel Hall, que passou a ocupar a sua função no Sonhar desde então.

O que nos leva ao personagem brasileiro Fikom!

Criado em 1968, por Fernando Ikoma, teve 16 aventuras publicadas, tendo sido interrompido em 1973 pela censura da ditadura vigente na época, que fechou a editora onde ele era publicado!

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Fikom no traço de Shiraky (Julio Ramos)

Fikom, O Herói do Universo dos Sonhos, é o alter ego do jovem Mukifa, que descobriu um amuleto capaz de transportá-lo a Dimensão dos Sonhos, onde ele se torna o valente super-herói. Ao dormir, ele é levado ao espaço que existe entre a realidade e os sonhos, onde encontra a chamada “Porta da Aventura”. Ao atravessá-la ele é transportado aleatoriamente a qualquer mundo real ou fictício, onde combate o mal ao lado de sua amada Sandra. Como Fikom, ele possui um cinto com vários dispositivos que o permitem realizar diversas proezas pelo período de três minutos. Ele pode, por exemplo, ficar invisível, disparar raios gravitacionais e desintegradores, além de poder retroceder três minutos no tempo.

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Capa da revista solo de FIKOM, pela Editora Edrel.

Mas afinal, o Sandman de Neil Gaiman é um plágio do Fikom de Fernando Ikoma?

Para responder a essa pergunta, foi preciso ler a as duas obras e comparar seu conteúdo. Apesar de possuírem conexões parecidas com o universo onírico, são personagens distintos e suas histórias são originais, cada uma à sua maneira. Além do mais, é improvável que Neil Gaiman tenha tido acesso ao material de Fikom, uma HQ dos anos 60, publicada no Brasil, censurada pela ditadura e jamais lançada fora do território nacional. Além do mais, o enredo, a trama e a narrativa são completamente distintas uma da outra, o que por si só já descaracteriza o plágio.

Não podemos “defender” cegamente uma HQ nacional sem analisar corretamente todos os aspectos envolvidos, e não se trata de privilegiar o trabalho de estrangeiros em detrimento ao nosso, mas apenas sermos justos e honestos. Até porque, Fikom, não precisa de defesa, é uma HQ espetacular, que certamente não precisa ser comparada a nenhuma outra. Pegar o personagem fora do seu contexto, sem ler ou conhecer a sua história, e apenas por ele ter ligações com os sonhos, compará-lo com outro, ou acusar esse outro de plágio, nada mais é do que disseminar uma informação incorreta que ao meu ver não ajuda em nada a situação dos quadrinhos nacionais. Muitos personagens nacionais têm semelhanças com estrangeiros, e embora seja desejável buscar identidade própria, isso não desmerece sua trajetória.

Como bem disse o editor Franco de Rosa na introdução do encadernado do herói brasileiro: “Comparar Fikom com Sandman é bobagem xenófoba. Porém, ambos possuem uma coisa em comum: bons enredos. É só ler e comprovar”.

Conclusão:

Fikom e Sandman são personagens 100% originais e mesmo que existam paralelos entre eles, não há nada que configure plágio. Embora o personagem brasileiro tenha sido publicado anos antes da versão de Gaiman, as histórias são totalmente diferentes.

Ambos são obras primas dos quadrinhos que merecem o nosso respeito e reverência. Inclusive, é possível gostar das duas, o ódio ao “concorrente” estrangeiro não é obrigatório.

Discussões à parte, essa pode ser uma boa oportunidade de procurarmos esse material com as HQs de Fikom, e também outras grandes obras nacionais, porque existem incontáveis quadrinhos brasileiros de excelente qualidade que infelizmente são pouco valorizados.

Leia, descubra, apaixone-se, valorize e divulgue os quadrinhos nacionais!

Se quiser começar com um certo Herói do Universo dos Sonhos, saiba mais sobre o personagem lendo a resenha de FIKOM! E aproveite para visitar o blog de Fernando Ikoma, criador do personagem!

Para finalizar, fiquem com essa mensagem, direcionada a todos os artistas e amantes da arte, em qualquer lugar do planeta, independente de sua nacionalidade.

Discurso “Make Good Art” (“Faça a boa arte” em tradução livre).

(Legendado em português)

 

 

 

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